sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

PRA VOCÊ, MEU BEM...DE LONGE

me represo quando procuro saídas
e hoje vi um beija-flor bem pequeno
me acuso assim que furo barreiras
logo cedo quase saio voando
é só vontade de falar com você
a estrada é bem velha, reta, seca
o novo ano logo vem
e eu vou ouvir
da boca da sua janela
todos os pássaros do mundo
cantando
te amo

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

UM DRAMA UM POUCO RUSSO

acordei com as cores do óbvio
e fui ao encontro do sinal fechado
esperei com paciência
um olhar, um não-ver, um aceno
tive idéia de uma camiseta com os dizeres
não sou o que você pensa!
os pára-brisas me olharam com raiva
e ao meu lado me mostraram como é o sol
queima quando não nos olham
e arde assim que passam por cima
me disseram arfando:
você que sempre pode lavar essa cor, olhe por nós

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

LEMBREI

Um dia eu tenho certeza, acabam-se as palavras. Perigo ou surpresa, é mais um dia na montanha-russa-movediça que é o nosso amor. Os belos olhos negros colados numa alvura que jurei não esquecer. Aquela pouca fé que me faz maior. Tímida fé. Logo nós que concordamos em nos esquecer. Seremos impossíveis? Possíveis de dizer, passíveis de entender e perdoar. Damos favas às nossas juras e fazemos melhor. Escolho uma cisma menor, que me impede a fuga mas me mostra o horizonte. Chove, chove, chove e não acho os dias tristes. Não encontro problemas, não corro da dor. Já penso é na fuga certa das palavras, que não sobram nesses dias cheios de vento.

SOMOS DOS

fiz, mas apagou. fica a lembrança e a certeza de que uma das palavras era montanha-russa-movediça.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

BOM DIA

Minha manhã é só alegria, quando sei que seus planos precisam de um carimbo meu.

domingo, 18 de novembro de 2007

OLHA

Um Cafuné na Cabeça, Malandro, Eu Quero Até de Macaco

Composição: Milton Nascimento e Leila Diniz

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
Porque não sabem que o mar
Porque não sabem que o mar
É de quem sabe amar

sábado, 10 de novembro de 2007

ETERNAMENTE: PANCADAS

Quem é essa mulher que gosta de apanhar da vida?
Ela não procura sua vez, nem sua hora, ela sabe esperar
Será preciso eu, chama-lá num canto?
Nem tanto
Em vão se foram nossas tentativas de informá-la
Que na espreita assim, não se pode muito
Que a dor não passa deitando o juízo
Que o vazio não morre fingindo que ri
Mas ela não ouve, não pode escutar
Ela aperta o orgulho e esconde a razão
Sentir falta é melhor
Do que recomeçar

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

"OVERTABLE"

Como estão baratinhos esses morangos!
Na feira ela diz animada, sob o solzinho das dez.
Ela suporta tudo menos você
Ela odeia mesmo você.
A moça da foto do vestido de sempre
Que falta de imaginação!
Quem vem para o jantar?
Ela vê, então, o moço das bananas e tem uma idéia
O rancor vai embora
O dia leva
Ela se esquece de você
Não há mais espaço para sua boca suja na felicidade dela.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

UMA PISTA

"Dai ao mundo pimenta, Senhor, desde que saibamos que arde".

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

LALARILÁ

Hoje a gente acordou cantando
aquela música de há tempos
abrimos os olhos lendo os lençóis
olhando calmos o amanhã

Eu desembrulhei o coração
nossos papéis desamassados
lembramos juntos aquela manhã
planejamos o sol pra semana que vem

sem falta!

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

MEIA VOLTA

Volta e meia eu recobro a memória
de um tempo que me lembra janeiro
sabia que a luz do dia era pouca
queria mais vento
menos sombra
julgava impossível não gostar de mar
não pensava em receber a escuridão em casa
nem na noite calada
nem de manhã-madrugada
só que a distância deu meia volta
viver se fez urgência
e eu constato sem dor
que todos os meses dos anos que chegam
são janeiros ao meu redor
dei-me férias da agonia
só você me bastaria
nos próximos anos, nos novos dias

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Alguém desarruma as rosas - um poema feliz

Alguém desarruma as rosas
como a vida faz com a gente
muda o rumo
afasta a estrada
chega a chance pra mais perto
amo-te oh vida!
Essa despensa bagunçada
é seu maior estandarte
de riso, de sonho
de poder desarrumar tudo
e ainda: lá fundo ser bem feliz

sábado, 6 de outubro de 2007

Viação Lá Vou Eu De Novo

não, nem desfiz as malas
palavras-cruzadas pela metade
a revista Quem vem comigo a contragosto
as malas já têm nojo da estrada
e eu tô sem saco pra sacolinha pendurada na poltrona

mesmo assim, sem dó de mim
eu amo viver e tentar
eu sinto te incomodar
como uma ferida embaixo da língua
que te irrita, me incita
e no fim
eu só me arrisco em mim mesma
decidi ir ser eu mesma, dessa vez sozinha

Chega, Lola, chega!

Eu te nomeei Tristeza
por outro nome não saber dizer
nesse momento, te chamaria Dádiva
mais pelo diva
do que pelo divã.
Se eu estou aqui
tecendo nos cabelos a preguiça de sempre
você me olha assustada
e o canto do olho já me adianta:
Sai dessa dessa pra sempre!
Mas não é tão duro quanto parece
e não tão fácil de rimar.
Essa dor que gela e faz suar
já se cansou de mim
eu é que não me acostumo sem ela.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

SQN ou O sorvete dos meus sonhos

Cuidado com meus sustos rotineiros
O melhor é se antecipar ao vento da noite
E correr por baixo daquele mundo que já conhecemos
E que queremos muito esquecer
Te amo pausadamente
Diversamente
Discretamente
Mas não almejo nada mais que um pulo
Um salto assustado, talvez
Que te faça me alcançar no imenso do meu dia cheio
Meu dia nunca basta
Ele espera aquelas coisas que você ainda não consegue falar
Mas é sempre bom ver você
Ouvir seu riso é saber:
Ele nunca é igual ao que sai de ti quando longe de mim.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

EU ERA - A LUA E ELA

aquela manhã matou o tédio
e eu sofri quando notei que nunca fui Clarice
imitava os trejeitos, sofria nos jeitos
mas não convenceu ninguém
todos ficaram calados por seis meses
me ajudando na farsa
mas aquela manhã matou a charada
a minha, que ainda me via como ela
e a deles, ora essa, grandessíssimos idiotas
será que não conseguiriam fingir até o jantar?
com a lua clareando minha pobre Clarice
eles só poderiam alegar que descobiram pelo nó na gravata

quarta-feira, 4 de julho de 2007

UM AMOR DE COZINHA

quadradinhos em cima da mesa
ora de peito aberto
eu observo
ela que nem sabe cozinhar
mas tem pose de chef
me olha com meia pestana e diz
você não presta
eu aceito o elogio
ela me ganha com arroz e ovo frito
e me perde na semana seguinte
quando copia o risoto da TV
sai perfeito
não pra mim, um homem simples
eu penso nela pensando como aquela
que desajeitada por detrás da tela
acha que homem liga pra essas coisas bestas

domingo, 1 de julho de 2007

DESCULPE-ME ou OCUPE-ME

ela queria um dia só dela
mas isso podia esperar
a noite era aquela, clara
como todas de luar
perfeitas em seus defeitos de azul
ela não quer ser a sombra dele
e será que ele sabe que o sol dela é ele?

DESASTRADA

Suzanne viu a avó pela greta
sujou a barra das calças
mamãe vai brigar
uma semana sem TV
menina que quer ser vista
de longe, mas quer
Os óculos atrapalham
embaçando na melhor hora
a respiração ofegante
faz fumaça na lente
quando ele passa
nem ele a vê
e nem ela o vê como gente
enxerga tudo purê de batata

sábado, 30 de junho de 2007

MAIS PERDIDA QUE O TENENTE BELLO

em meu avião de papel procuro as respostas que me fogem pelos dedos.
sinto pena de tudo, mas principalmente do que há detrás dos montes.
essa terra é perdida de mim, mas ainda é minha.
ela me perdeu quando não me quis como sou, e eu a deixei ir com essa constatação.
eu não sei mais o caminho de volta.
sei um novo, que me assusta.
esse caminho não voa.
ele só faz a pé.
e quando eu for chegar, não darei de cara com a dura montanha gelada de outrora.
mas como o morno vento que corre atrás.
que me junta nessa terra e conduz meu aviãozinho de papel para onde eu nunca quis ser ninguém.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

OUVI DIZER...

salta a cidade pra dentro do carro
as rodas dançam livres da poeira
e os meninos querem mais
mais leite da vaca e menos asfalto
mais pitanga e menos assalto
pois é assim que a vida chega
pra eles de vidros fechados
raio lasers e pais separados
e eles puderam escolher?
seus filhos poderão?
ainda é cedo, conclusão!
no leite da vaca a mãe dá um jeito
e a pitanga tem no sacolão
tem gente da terra querendo concreto
achando que a felicidade é aqui
e que de fruta e leite não se vive mais

segunda-feira, 25 de junho de 2007

TE VENDO AGORA

pé com pé
lé com cré
eu te vejo de lado ao meu lado
pensando em mais nada
mandando em meu pulso
dizendo quem sou
mãos sem nãos
toque de garras
glória ao que sinto
creio de novo no que me diz
eu nunca esqueci
daquela varanda
de esperar as manhãs
e os encontros em amarelo
aquela camiseta
agora ao menos
posso te obedecer
fazer por você
te amar inda mais
céu no céu
cheio de naves novas
nunca luzes que já vi
nuances de azul que foram cinza
mas jamais tão prateadas

sexta-feira, 22 de junho de 2007

NA AVENIDA

até a roupa dela é magricela

a costela é o reco-reco

o tamborim não tem

o bumbo não vem

cuíca sem som

enredo sem dó

a evolução é lenta

o recuo é cedo

nessa noite de carnaval

ela é que se deu mal

ficando em casa esquecida

me olha fantasia!

me chama que eu quero passar

O AMOR ESQUECE DE RECOMEÇAR

súbita falta de ares serenos
a borboleta que não pousa
a inquietude não é pouca
é a mansidão que sufoca
saber-se longe é deixar-me chata
e esse charme que mata
o carma que nos atrasa
ninguém mais vê
seu medo é bobo
não quero mais ninguém pro meu fim do mundo
pensei em você e só
quando aquele tal físico revelou
que a gente acaba mesmo em estrelas

NA MANHÃ EM CIMA DO MURO

haja censura
pra tanta lembrança
um chinelo no pé
é motivo de dança
e quem é que não quer
subir pelas paredes
viver o amor
que seja nos tempos do cólera
do telhado eu vi
a cidade que me fez
e que nos desfez
chamei bem alto
tapei os olhos com força
e deu certo!
a cidade ficou de pé
o chinelo nas paredes
e o amor no telhado

AMANHECEU

luz
direto na cara
sonho e
frio que não sara
ai que bom
não ser nada
pra poder ser sua

...

é que quando eu pensei que o mundo tinha sumido
acendeu aquela luzinha lá no fim do túnel
foi difícil me equilibrar nos trilhos
mas eu pretendo chegar depressa ao acaso de você
porque não me resta mais nada
só o que combinamos
e se é acaso, deixa estar
se é túnel, que não pareça um labirinto impossível
já que meu amor é bem simples, mas capaz de derrubar muralha
tropeçar não me faz cair
mas cair me diz que isso nunca aconteceu desse jeito
jeito inevitável, que nem a morte evita
acabou o pesar
é que eu queria gritar
que prefiro você
a todos os males do mundo

sábado, 9 de junho de 2007

HORA DO VAMO VÊ

estão todos de pé
a hora é agora
você que sofreu
você que chorou
seu tempo é aqui
seu dia é agora
não venha mais medo
esqueça o seu credo
a força que apruma
a certeza é só uma
vai recomeçar
você se acostuma
um dia mais cedo
levanta sorrindo
e come com gosto
o que nem gostava
e só não aceita
a cara desfeita
os olhos molhados
não são de chorar
é a água da pia,
a bica que avisa
que o jeito melhor
foi deixar de secar

terça-feira, 5 de junho de 2007

BACKUP

clara me faz querer ser mar
lenine me mostra nordestina
nelson me acusa sem-vergonha
cartola me faz querer sofrer
arnaldo me conta que sou letra
ferénc diz que sou menina
a ana me deixa ser história
augusto quer que eu seja escória
chico quer que eu seja dele
pro rubem não sou ninguém
carlos me faz querer ser quem?

CORRA PRO NADA

o suor na vida não é nada
sem o tempo da parada
a hora do sono lento
leve, rasteiro como o vento
a cama chama em chamas
mas ele não vai porque é cedo
e não cede
ninguém é nada sem sossego
por muito tempo andou pensando
em quem não pára de pensar
será que é certo ser assim?
pensar em tudo a toda hora
a vida foge e ele corre pro fim
sei que um hora ele foge de si
e corre pro nada porque tem tudo
aí procura alguém
para ver junto o tempo passar
o que ele não sabe
é que o tempo acabou de acabar

quinta-feira, 31 de maio de 2007

PELA CALÇADA

pensamento usado
para cabeça cheia
janela aberta
para tristeza na rua
festa para o tédio
encosto para o prédio
ferro
para o que já passou
cobre
o que ninguém viu
cadeira pro vento
parar de passar
o mundo pra cima
e o ar de pernas
para o ar
é assim quando você passa

segunda-feira, 28 de maio de 2007

SÃO TOLICES


botei tranca até no teto. do meu coração não sai mais nada, nem entra.
ela disse isso com a convicção dos 16 anos e das maõs lisas de lida. ninguém precisou duvidar.
um outro que desceu das estrelas com a petulância dos 20 tratou de desfazer o engodo.
mostrou com seus dedos calejados de cuidar que trancar não resolve.
muito menos avisar que trancou.

domingo, 27 de maio de 2007

EM FRENTE

é com muito pesar que digo
a realidade não me morde mais
estou pronta pro mundo
acabada de sensatez
não me preocupo se há alguém
na espreita, à espera, rindo atoa
só consigo estar presa na razão
não me ocupo mas sempre culpo alguém
esqueço de me redimir
suporto falsas agonias
desde que não sejam as minhas
e longe se vai devagar a dúvida
que antes batia a cabeça na parede
agora ela é estrada inerte
sem rastro, com a lua de cima olhando
não gosto de viver certezas, mas amanhã
eu não consigo ser mais assim

sábado, 26 de maio de 2007

CONSTATAÇÃO

ele chega cansado
um banho morno
monotonia
o dia sem gosto
ver as tarefas
saber da vida
bolachas na mesa
luz tardia
o sono nem vem
e ela se foi
o menino ficou
sem fraldas
isso é fato
chora um pouco
a dor da mãe
é tarde pra amá-la
carinho nas costas
assim ele pensa
um filho mais forte
pronto pra vida
que nunca se esqueça
de quem não estava lá

quinta-feira, 24 de maio de 2007

ANIMA

hoje eu acordei com o dia na cara
e noite pelo travesseiro afora
correndo de mim
corre noite, chega dia
só sei que é melhor
alguém tem que se esconder
e não foi o dia que sumiu
ele ardeu forte
e eu quis assim esse dia
que fosse história, fosse revoada
os pés fora da cama
o sol na calçada
a claridade é assim
nos anima
mas logo mostra onde não podemos pisar

sábado, 19 de maio de 2007

O BARULHO DE EXISTIR

somos o silêncio de décadas

a saudade na janela

e a necessidade de carteiro

somos o coronel

para quem ninguém escreve

e queremos ser lembrados

por tempos depois de existirmos

precisamos do barulho da memória

chacoalhando numa caixa antiga

enterrada na gaveta do tempo

um som de caixinha de música

a página virada de um álbum amarelo

existir é ser ouvido

mesmo que baixinho

na esquina do tempo

na dobra de uma lembrança vaga

RISO PARA DENTRO

Eu agora rio de você
não um rio vazio
mas uma risada com gosto
daquela que fura a alma
Você que ri de tudo
que se acha engraçada
e usa tudo no diminutivo
E eu odeio as palavras inhas
melhor ouvir suas dores
do que sentir as minhas
e por enquanto
no canto da boca
eu só posso rir para dentro
dos seus planos ridículos
suas cismas de fantasia
a alegria por um triz
nas palavras incoerentes que você diz
Se eu fosse você diria pra dentro
sozinha numa luz mortiça
aí vai mais um conselho meu
se não pode sem alarde falar
planeja seus desvarios só
pois assim é o rio mais manso
aquele que corre sem barulhar

quinta-feira, 17 de maio de 2007

PROMISSÓRIAS

numa caixinha de sapatos
cabem as coisas que amamos
amo eu, ama você, amamos todos
mas não é tão simples
é raro assim
não ter as fotos
não ver o dia
raiar do seu lado
eu não ligo e não digo se ligo
é como deixar a caixinha
ao lado da cama
sem pôr fim
querer que seja assim
você não vem buscar
nem eu devolvo
e andamos por ali
nesse mundo a bailar
querendo os porquês
que dizem que eu do seu lado sou melhor
e alertam que comigo você é
até melhor em português

domingo, 13 de maio de 2007

PRATODODIA

é como ter a porta sempre aberta
e saber que por ela ele não entra mais
é ter a comida no fogo
esquentando pra alguém que não tem fome
olhar de lado e não conhecer mais
esse dia raiando mais triste que um breu
é contar as moedas para a batalha
e ver que só sobrou o vazio no tilintar das horas
não se importar mais com o verde da horta
se os meninos têm frio ou foram dormir
ou se sumiram por não aguentarem te ver na escada
fingindo que alimenta as galinhas
vestida de trapo pensando que é renda
em eterna prece por um horizonte
cortado pelas patas de um cavalo
que vem espantando os pássaros
mas que com certeza faria você cantar de novo

sábado, 12 de maio de 2007

REM

olha que lá vem ele de novo
sacudindo a poeira
rindo risonho
do longo sono
foi dormir obrigado
deixado de lado
cobertor velho, eu que sei!

mas agora é tarde
eu que não quero sossego
dispensei as desculpas
eu vim pra ficar
ou eu tomo conta da casa
ou fico num canto
que é meu lugar

quem mandou?
colocar para dormir
um amor que acabou de acordar.

terça-feira, 8 de maio de 2007

É

você
que sonhou o sonho dela
prepare-se
ela não sabe mais sonhar
perdeu o jeito
e quer aprender
a nunca mais saber

ela riu
quando ele disse
que num mundo tão sujo
ela é a menina da letra bonita
ele que só fala por dizer
lê
no olho a alma dela
cansada de sonhar
ele mente mas sabe
mentir as coisas
que ela precisa
um mundo mais perto
mesmo que seja incerto
palavras baratas
destino cruel

é,
moço
você falou bonito demais...

sábado, 5 de maio de 2007

ENTRE

e o amor que cor que é, não sabemos. parece que a razão é arco-íris. mas em tempo de sol forte ela não vem. ela tem medo de queimar e arder. por isso na sombra de um chapéu ela aparece. mas só lá. conosco é assim. cor de mel é a dúvida, essa sempre vem. faça chuva ou faça sol, chega sem avisar. ela sabe ser doce quando a gente deixa a porta entreaberta. mas não pode mostrar que esperou muito, senão ela vai embora sem motivo. o medo nós nunca vimos. acho que ele não gosta de ar puro, e aqui tem muito. talvez ele tenha visto a casa aberta. com arco-íris, chuva e sol. e percebeu que aqui, acolhemos todos, mas não convidamos ninguém.

DUAS OU TRÊS VONTADES

subindo a serra
sentindo frio
ela pedia perdão
pelo que queria
e pelo que não podia querer

eram só duas
ou três vontades
uma
da madrugada

será pecado?
querer calor
ralhar com a vida
com o desamor

ela não sabia
só queria
queria
queria

sexta-feira, 4 de maio de 2007

O TEMPO JÁ VOLTA

a parte mais feia de mim
não é aquela cicatriz que tenho na testa
feita correndo ao redor da mesa de centro
dando risadas por coisa alguma
no meu aniversário de 2 anos
minha mãe se lembra bem

feliz por um disco
um moranguinho
inconstante num instante
lá estava eu virando gente
querendo ser
rodeada de atenção
com papai babando
e nem sinal de irmão

a parte mais bonita
é querer ser hoje, a menina de ontem
numa vida menos doce
sem os discos de vinil
mas ainda batendo a cabeça de vez em quando
disposta a cicatrizes e cuidados
pelas coisas que ama ou quer amar

terça-feira, 1 de maio de 2007

EU NÃO ABRI


segunda-feira, 30 de abril de 2007

OLHE O MAR, POR MIM


A você que ja me fez tanto, só peço mais um favor. Me conte tudo daí, porque amigo mesmo é quem sabe se fazer presente no vazio. Me dê aquelas notícias que só você sabe dar, quando no fundo do poço parece passear nas estrelas. Fico feliz mesmo quando adivinho sua solidão, aí bem longe.
Não pense que não sei, que sofre de amor, de fome e de falta de livros. Vejo pelos postais que não manda, pelas fotos que não tira e por todas as lembranças que não quer ter. Não há quase nada que possamos fazer por envelopes. Ou há muito então...quem sabe nossa correspondência não termina em um museu dizendo quem fomos? E aí vai ser tão bonito! Só iremos trocar palavras belas a partir de hoje.
Me perco nas entrelinhas dessa saudade e esqueço por um momento do que ia pedir. Quando estiver sozinho, fazendo nada ou pensando bobagem, faça aquilo que combinamos: olhe o mar, por mim.

domingo, 29 de abril de 2007

SE É PRA SER QUE SEJA SEU

se você é daquelas pessoas
que dizem assim:
se tiver de ser será
eu só tenho a te dizer

fique mesmo aí parada
esperando ser de alguém
esse um também está
sentado em algum lugar
esperando por você

você que nunca irá
pois ocupada está
em somente esperar
pensando demais
se deve se levantar

você não consegue ir
nem mesmo até o espelho
e nem vê o tempo passar
fique aí que vai ver

as horas correm de você
você nem tenta agarrar
e acha desnecessário
já que o dia vai chegar

o dia de levantar
tá perto
você crê
ele ja se cansou
levantou, se trocou, amém!

agora passa na sua janela
você só sente a água de colônia
e inveja dela também

E NO ENTANTO, SE MOVE...

se é amor por que não se move?
não vai balançar, cansar, cair, voltar?
sei lá
se for amor meu eu sei o começo
do fim não quero notícia
do meio eu preciso sair
e eu fico aqui olhando e esperando
mesmo a desilusão é movimento
se esquecer do pão de manhã também é
e disso eu entendo bem
eu prefiro que você me espere
parado também vale
andando já não sei
mas faça-o girar!
se eu quero um girassol, faz um cata-vento
porque nosso amor precisa cirandar

quarta-feira, 25 de abril de 2007

PORTA-AMOR

Quando eu te amei, eu fui o amanhã
Nem disse nada, eu pensei primeiro
Refiz a vida, esqueci de ontem
Enrolei minhas desculpas num lenço antigo
Fechei bem a porta com trancas de esquecer
De jogar a chave fora
Mesmo com o coração dentro
E pensei em novas palavras
Em como sonhar mais acordada ainda
O sofá perdeu o aconchego
A cama o sossego
Geléia nem tinha graça
Tive medo de mim
Mais dó do que medo
E se eu cansar de pensar?
Bordei na memória todas as palavras
Os cheiros numa garrafa
As cores eu nunca esqueci
Desconfiei da brisa
Mas guardei mesmo assim

terça-feira, 24 de abril de 2007

TUM TUM, TOC TOC

e eu me pergunto por que ele não me traz de presente
tudo que eu peço da vida:
uma colcha de retalhos bem feitinha,
uma brisa de mar e histórias de contar

eu adivinhava que era ele só pelo toc, toc
ele sabia que era eu pelo tum, tum
aprendemos juntos sobre muitas coisas
esquecemos tantas...
me perdi tentando adivinhar quando
não iríamos mais precisar tocar pra saber

acho que tem um ano
que não ouço toc, toc
nem faço tum, tum
agora eu olho pro lado e digo: psiu...
eu ensinei o tempo a pular a janela
e juro que não tenho mais nada a pedir!

domingo, 22 de abril de 2007

Quem viu os balões?

Se me pedissem para falar de sonhos
juro que nunca contaria os meus
eu os acho sem graça e sem rumo
Se eles são coloridos?
claro que não!
Talvez eu pedisse para algum amigo mais sonhador
falar sobre as nuvens que tapam seus olhos
e das cataratas que ele ainda não viu

terça-feira, 17 de abril de 2007

SIM, EU VOU VIVER.

Emudecer na hora certa.
Cantar bem alto na hora errada.
Rir da tristeza e não da piada.
Deixar pra depois o de sempre.
Pra sempre esquecer o depois.
Ver a noite cair e dormir de manhãzinha.
Sair da toca.
Achar que sabe tudo e que isso de nada serve.
Não escrever aquela frase.
Nem se lembrar daquela carta,
a única de amor que recebeu na vida.
Graças a Deus não ser profundo.
Nunca ser piedoso.
Dividir-se em alguém,
mesmo que não sobre ninguém inteiro.
Contar aquela velha história,
que só você aguenta ouvir.

EU ERRO, VOCÊ ERRA, NÓS JÁ ÉRAMOS!

Ter um amor já é se jogar num possível engano, um erro em potencial, um equívoco que se não está claro agora, com certeza aparecerá dois anos depois.

Estar disposto a errar assim, correndo o risco de achar estranho ter chamado aquele cara de "meu amor", só faz sentido quando estamos seguros de que se nos enganarmos, pode ser pior para quem ainda não se descobriu enganado.
Enfim, amamos com desconfiança, mas seguimos em frente por acharmos que sempre tem alguém mais iludido que nós.
Ainda sim é bom se sentir confusa, a cabeça atrapalhada, os ponteiros do relógio andando devagar.
Só não é legal ouvir de alguém: "eu acho que me enganei". Isso dá vontade de ter dito antes! Ter adivinhado, seguido as pistas. É claro que não é tão simples quanto clicar na verificação ortográfica aí em cima e esperar, mas pode ser pior se você não levar a sério que ele realmente errou.
Inventar que passa, esperar que mude, viajar não dói. Não resolve. Nem quando casar sara.
Persistir no equívoco é ouvir depois de muito tempo: "eu tentei te avisar".

NÃO É O MEU CONTO DE FADAS PREFERIDO, MAS PODE SER O SEU.

Você já fez muitas coisas feias nessa vida, mas ele nem liga. O que você chama de passado, pra ele é uma era distante, talvez a mesozóica. Simplesmente ele não entende como você pode pensar tanto no que já passou. Você tenta saber de alguma coisa que aconteceu antes dele te conhecer, ele diz que nada aconteceu antes disso. Você acha estranho ele gostar de chá, mas aceita mesmo assim. De manhã ele nunca diz que você acorda menos bonita, embora você se sinta uma abóbora. Ele nem mesmo entende suas analogias infantis.
Eu juro que ele não franze a testa quando você aparece com o cabelão pintado de verde.
Para ele, você não tem nenhuma mania estranha...quer dizer, só aquela do dedão do pé.
Então menina, beija logo antes que ele vire um príncipe, aí sim vai ser um saco...
Com esse sapo, pelo menos você vai parar de gastar todo seu salário em sapatinhos pra se sentir melhor.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

ANNA


quarta-feira, 11 de abril de 2007

PARA BERTHA, SOFIA E RACHEL

Mamãe diz que não é pra falar com estranhos, e eu acabo falando comigo mesmo. Estranho por estranho é melhor um de confiança. No dia em que aconteceu tudo aquilo, eu acordei e não achei o mundo bom. É lógico que resolvi fazer justiça com minhas próprias mãos, mesmo tendo só 1,66 m de altura e um sério complexo de inferioridade. Pensando bem, eu ainda queria aprender a tocar sax antes de ter minha cara esmagada numa rua escura do centro da cidade. Mas lá estava eu.
O inatingível era mesmo o centro da cidade. Sempre foi. Mesmo quando papai era vivo, a glória era o bonde, os prédios, as putas e as luzes da cidade de verdade. O subúrbio era uma merda com a qual a gente fingia ter se acostumado. Mas isso é um outro problema, agora vou falar dela. Não que ela não tenha a ver com o centro da cidade, tem sim. Mas aí já estamos no fim da linha, no final da história. Eu a conheci menino e ela foi meu norte desde sempre, e eu a queria perto, bem perto.
Nunca imaginei que ela faria parte daquilo: bonde, prédios, putas e luzes. Eu juro que naquele dia acordei disposto a tirá-la de lá, mudar a vida dela, fazê-la esquecer de ter fome e de que era preciso apanhar pra ganhar a vida. Mas ela é que era forte, decidida e triste. Minha vida tinha sido uma merda mas a dela foi pior. Ela teve que se acostumar e lá estava ela de pé, com a cara suja e o corpo com frio. Fui chegando perto para dizer algo, ouvi-la, falar. Mas cheguei tão perto que a miséria dela me derrotou.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

AS MENINAS - PARTE 3

Um dia conheci uma menina com uma flor. Não aquela do Vinícius, mas se ele a conhecesse, bem que poderia ter sido. Ela tem um riso tão bonito que quando ri num quarto mal iluminado, nem é preciso abir a cortina. Até o dentista disse um "deixa disso" quando ela quis pratear o sorriso.
Preciso falar da menina que gosta de passear, olhar, saber e que quer ser muito. Mas o muito dela não é nada. Nada comparado a alguns muitos que já vi.
Passeando com ela eu aprendi o quanto é bom complicar coisas simples. É legal descomplicar depois e achar que fomos nós que inventamos a simplicidade.
Do mesmo jeito que cuida com carinho de quem a quer bem, ela pode esquecer suas plantinhas na janela e voltar de vez em quando, perguntando como estão. Tenho a impressão de que quando ela volta, eu nunca senti saudades. A presença dela apaga a ausência e instiga a lembrança de outras eras, quando éramos despreocupadas em bater na porta ao lado e ter alguém para abrir.
Para mim, ela ensina mais que aprende, não impõe suas escolhas mas obriga seus gestos a se aproximarem para pedir aprovação. Aprovação da qual ela não precisa. Ela faz tudo certinho.
Ela é a amiga que não pedi a Deus, nem ele mandou assim mesmo. Nossa amizade é feita de cotidiano, de cumplicidade, de mea culpa e de muita admiração. Em muitos ditados resumimos a vida, os outros, nós. O que aprendemos juntas, é só nosso, o resto não entende.

domingo, 8 de abril de 2007

SETE MESES

"Como estão?

Os preparativos para o Natal estão indo. Não ligaremos se você não puder vir, mas vê se manda aquele jogo de talheres de prata da mamãe que sua mulher levou e não trouxe mais. A casa está uma bagunça sem a Neide, que resolveu voltar para o Norte ou Nordeste, sei lá.
Papai só fala nas corridas de cavalo e no Geisel, conta as mesmas mentiras sobre a guerra e pergunta por você na hora do jantar. As coisas não vão bem com a Irma, o Jorge saiu de casa de novo e ela está passando uns dias por aqui. Coisa que não concordo pois se ela tem filhos, por quê não mora com eles?
Sabe a Suzana, aquela que se juntou com seu irmão? Diz que vem trazendo os filhos pra ceia!! Eu não aceito, não mesmo! Nem sei de onde veio essa mulher e nem quero saber dos filhos dela aqui! Ai meu Deus! Tenho tanta coisa pra resolver!
Olha, faz quatro meses que você não manda a mesada da mamãe, desse jeito não tem como! Os remédios estão cada dia mais caros e eu, você sabe, aquela dor nas pernas...
A Vânia ainda está com enjoôs? Engordou muito? Não deixa ela comprar muitas roupinhas que nem dá tempo do menino vestir!
Isso é tudo, não vou ficar tomando seu tempo. Se vier mesmo, traga roupas de cama, sim? As que têm aqui estão em petição de miséria. Ah..e ligue antes para comprarmos as bebidas. Carmem".
Terminei de ler enquanto acariciava a barriga de sete meses de minha esposa. Ela já cochilava de lado e eu suspirei e disse:
_ É filho...esse é o mundo que te espera.

COMO VOVÓ JÁ DIZIA...

Não sei como eu ainda acredito nos cosméticos. Usar um creme que promete um superbronzeado e o máximo que se consegue é ficar da cor de uma cenoura. E nem é uma cenoura orgânica.
O pior é ler os rótulos como se entendesse alguma coisa ou levar o creme porquê o fabricante protege a natureza. Nada disso resolve. Nada tira a culpa que me remói quando abro o armário do banheiro e estão todos lá, agrupados por cores ou tamanho, validade vencida ou não, esperando operar milagres.
E olha que nem uso os anti-rugas, esses prometi comprar só depois dos 25. Rugol ou formol? Essa é a questão.
Na verdade a questão nem é essa, é sim continuar acreditando em coisas impossíveis, mudanças radicais, padrões inatingíveis e aviões que decolam na hora certa.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

ELA QUEM MANDA

É tanto deixa pra lá, tanto só pra depois
Fiquei cansado de esperar
De tanto disse-me-disse, por vários esquecimentos
Esqueci de te contar

E agora não há mais tempo
Você nem me ouve mais, cansada de acreditar
Eu sei que foi precisão
Mas precisava me deixar?

E o samba que a gente fez?
E a telha que a gente pôs,
será que vai aguentar?

Foi com tanto desamor
Fingindo saber da dor
Você que escolheu a cor
Pra nossa vida pintar

E agora o amarelo
Se foi sem saber por quê
O azul é o que lhe cai bem
Chora de lado que ninguém vê

domingo, 1 de abril de 2007

FICÇÕES DO COTIDIANO

Lendo um texto do Carpinejar sobre a "dieta de sonhos" de que nossa vida é feita, me pus a pensar (também) o que nos faz procurar constantemente a ficção em meio a toda essa realidade insistente. Deixando de lado as divagações psicanalíticas que Fabrício começou a fazer, fiquei surpresa comigo mesma por não correr para a ficção que me chamava na escrivaninha ao lado.
Percebi que buscamos o refúgio ficcional quando queremos dar "pause" na vida real.
Muito óbvio, não? É que "ficcionando" podemos ser mais de um, podemos reiventar, fazer de novo e até errar! Talvez na ficção vemos justamente o que queríamos ter feito e por qualquer razão imaginável a realidade nos impediu. Ou ficamos contentes em ver que enfim, alguém conseguiu organizar aquelas idéias que tínhamos e nem suspeitávamos como colocar no papel. Então, convido a todos a encherem suas ficções de cotidianos!

PALAVRAS ENCARDIDAS

Quero que elas voem para debaixo do tapete
Cheirem a pó
Morram na modorra do tempo
Sejam esquecidas numa gaveta de avó...

Se já disse isso a alguém, não quero pra mim!
Vire o verbo do avesso
Neologismos sim!

Pois se a pequena com quem gastou seu pobre português
Sua para sempre não se fez
O que será de mim?

sábado, 31 de março de 2007

MOÇA AÉREA

o sorriso dele tem mil lados e quatro mil ângulos.
o que ela mais gosta é o que tem o travesseiro por perto.
aquele em que ele fecha os olhos.
ela sabe as camisas dele de cor.
e reconhece nele a lei do menor esforço quando faz carinho nela.
ela finge que não sabe do que ele gosta.
ele tem certeza que ela sabe.

sexta-feira, 30 de março de 2007

E SE(U) CAIR?

Os impostos precisam cair a patamares internacionais e o que mais deve cair?
Caem as estrelas quando não compartilhamos o mesmo pedaço do céu. Será?
Acho mesmo é que a tela está de cabeça pra baixo, e o cardápio não vem mais, nem o garçon, que me esqueceu sozinha na mesa pra esperar do melhor em campo, no último segundo, o milésimo gol cair na rede.
Cair da cama sem você, será possível? Mas que cama, se eu estou pregada no teto olhando para cima pensado que meu corpo saiu correndo da alma de tanta falta do que fazer?
Vou correr pra você fingindo que não vou. Você vem?
Não importa as estrelas, os juros, se seus braços estarão abertos em rede.
E se eu cair na ida? E se eu voltar na queda? Se gostar de cair? Você jura que me segura?