"Como estão?
Os preparativos para o Natal estão indo. Não ligaremos se você não puder vir, mas vê se manda aquele jogo de talheres de prata da mamãe que sua mulher levou e não trouxe mais. A casa está uma bagunça sem a Neide, que resolveu voltar para o Norte ou Nordeste, sei lá.
Papai só fala nas corridas de cavalo e no Geisel, conta as mesmas mentiras sobre a guerra e pergunta por você na hora do jantar. As coisas não vão bem com a Irma, o Jorge saiu de casa de novo e ela está passando uns dias por aqui. Coisa que não concordo pois se ela tem filhos, por quê não mora com eles?
Sabe a Suzana, aquela que se juntou com seu irmão? Diz que vem trazendo os filhos pra ceia!! Eu não aceito, não mesmo! Nem sei de onde veio essa mulher e nem quero saber dos filhos dela aqui! Ai meu Deus! Tenho tanta coisa pra resolver!
Olha, faz quatro meses que você não manda a mesada da mamãe, desse jeito não tem como! Os remédios estão cada dia mais caros e eu, você sabe, aquela dor nas pernas...
A Vânia ainda está com enjoôs? Engordou muito? Não deixa ela comprar muitas roupinhas que nem dá tempo do menino vestir!
Isso é tudo, não vou ficar tomando seu tempo. Se vier mesmo, traga roupas de cama, sim? As que têm aqui estão em petição de miséria. Ah..e ligue antes para comprarmos as bebidas. Carmem".
Terminei de ler enquanto acariciava a barriga de sete meses de minha esposa. Ela já cochilava de lado e eu suspirei e disse:
_ É filho...esse é o mundo que te espera.