O eterno problema dos carteiros
O eterno problema dos carteiros é não saberem onde guardamos o nosso amor. Olham os envelopes com os bigodes espantados e acariciam-nos, violentamente, com carimbos de regresso à solidão. Estão fechados em casas de janelas vermelhas e saem à rua de farda. Pisam o chão com a mesma decisão de um exército perdido na batalha anterior e tocam, tocam muito, às campainhas de quem não está.
O eterno problema dos carteiros são os sacos sem fundo onde a nossa letra se torna irreconhecível de tão escuro. Os selos abraçam-se e fogem para o paraíso dos selos,as letras dançam ao sabor do esquecimento e não se sabe nunca onde está o remetente e o destinatário. Nos gabinetes, uma vez mais, bigodes sisudos e derrotados, têm os dedos feios e duros ao toque. Eu não poderei nunca saber, mas juro que os envelopes choram.
O eterno problema dos carteiros é não terem asas para subir às janelas das amadas, que se penteiam longamente em frente aos espelhos velhos das avós. Não poder ser anjo anunciador, nem mágico, navegante, descobridor. E talvez lhes pese o bigode insólito e burocrático, o pêlo encravado sobre o lábio. Eu continuo a lançar envelopes em branco da varanda.