terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sentença aberta

me pergunto de novo
como ele consegue rimar?
rima polvo com ovo
e ainda faz o mar falar

são tantas almas num corpo
que acaba que aceito
todas dentro do peito

em mim ele não cabe
não tem sequer ternura
mas quem é que sabe
quanto tempo a gente dura

o negócio é que eu gosto
como em uma equação
vale o quanto eu aposto
que não tem solução

Jornal de Hoje

fúria na TV
ira no rádio
despejo no lixão

guerra no blog
intriga no jornal
sexo no sofá

medo no barraco
perigo no front
cano na nuca

estranho que o mundo
ainda esteja de pé

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

zás

um cubo ao quadrado
meu quarto

um ó sem acento
me sobra o tempo

vão pela parede
só pode ser sede

vorazes sobem
me olhem!

um azedo dó
suspiro:
odeio formigas
mas prefiro
do que viver só

meio sol amarelo manga

Acabei de ver novamente o filme "Amarelo manga", do Cláudio Assis e tô lendo o livro "Meio sol amarelo" da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Coincidência? Hepatite? Aparentemente nada a ver, mas, ambos os temas são universais e instigantes: dramas humanos, caos, jogos de poder, estômago e sexo. Aí vai um trecho dito no filme:


Tempo Amarelo

Amarelo é a cor das mesas, dos bancos,
dos tamboretes, dos cabos das peixeiras,
da enxada e da estrovenga.
Do carro de boi, das cangas,
dos chapéus envelhecidos,
da charque.
Amarelo das doenças,
das remelas dos olhos dos meninos,
das feridas purulentas,
dos escarros,
das verminoses,
das hepatites, das diarréias,
dos dentes apodrecidos...
Tempo interior amarelo.
Velho, desbotado, doente.

Renato Carneiro Campos em Amarelo Manga.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Carta da cantora Maysa para seu marido Carlos Alberto escrita no fim do casamento.

Meu amor,

Agora que você adormeceu, que esse dia passou a ser uma partida, agora que até um sol meio canalha está me gozando, passeando aqui pela varanda, agora que é agora só por instantes e vai ser depois inexoravelmente, e que, não há a menor dúvida, você parte nesse depois, é que acho que a única coisa que me resta é fazer como os tolos infelizes, ou seja, emudecer, deixar que os meus olhos, que são a minha verdadeira boca, saibam, com a dignidade que só os cães têm, fazer do silêncio a minha forma de te acompanhar, de estar contigo nesta ida tua que eu não entendo, mas devo.

Transformar todos esses verbos, entender, partir, dever, partir, em um só: amar. Amar tudo que seja teu, até mesmo a tua partida. O diabo é que não é fácil. Enquanto estou aqui gravando tua fita, o som das músicas que são da gente é uma faca que me corta, corta tanto que a dor está rindo pelo conseguido. E, por falar em rir, como é triste o som de um violino quando a gente está triste. Nunca tinha percebido isso. Ao contrário, sempre achei que o violino era o rei da demagogia. Que nada, amor. É um puta sabe-tudo, companheiro pacas, e chora tão bonito quanto eu.

Volta amor, porque fiquei aqui.

Te amo.

Maysa

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

parida

menina você nem nasceu
e eu já me preocupo
menino você nem cresceu
mas já me ocupo

das suas saudades
da sua lonjura
do quanto demora
esse nosso encontro

eu preparo um mundo
despreparado
pra te receber

eu poupo água
recuso as sacolas
do supermercado

tudo, tudo
pensando em você
esperando crescer
essa vontade

que é o curso da vida
e pode crer!
vai acontecer

desocupação

não pensei que te veria
sem aviso no portão
desocupar o terreno
do meu coração

se eu soubesse de antemão
com certeza poderia
no mais tardar do dia
conter sua invasão

devagarinho poria
sem alarde e correria
o seu barraco no chão

quanta gente gritaria
que outro eu não acho não
mas eu não hesitaria
frente a manifestação

nunca fui de ter sangria
por quem nunca cumpriria
as juras do seu violão

se assim eu preferia
talvez você deveria
prestar mais atenção

Bim bom - João Gilberto

É só isso o meu baião
E nao tem mais nada não
O meu coração pediu assim, só

mapará ou caicó

posso ser mais compreensiva
mas tem gente que acha
minha grosseria bonita

acho lindas as palavras
que faladas estão
fadadas ao fracasso

mas tem umas...
que mesmo raras hão de cortar
seu coração

as acentuadas letras dos índios
enquanto outras que digo
nem precisam de acento

pra rasgar sua alma
mudar seu rumo
convencer seu destino

de que a mudez é a melhor opção

acho um dia bonito

dia de ver o vento descabelando as árvores
e as enfermeiras que não têm poesia nas mãos
hora de saber das novas regras ortográficas
tempo de conhecer a noite

porque quando acordo ainda é escuro
e me assusto
com as órbitas dos meus olhos viradas
e os espelhos que não refletem compaixão

será que os jornais ainda irão insistir?
as mil áfricas vão resistir?
a um bombardeio à sanidade
ao combate do meu coração

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Obrigado

Carlos Drummond de Andrade


Aos que me dão lugar no bonde
e que conheço não sei de onde,
aos que me dizem terno adeus
sem que lhes saiba os nomes seus,

aos que me chamam de deputado
quando nem mesmo sou jurado,
aos que, de bons, se babam: mestre!
inda se escrevo o que não preste,

aos que me julgam primo-irmão
do rei da fava ou do Hindustão,
aos que me pensam milionário
se pego aumento de salário

— e aos que me negam cumprimento
sem o mais mínimo argumento,
aos que não sabem que eu existo,
até mesmo quando os assisto.

aos que me trancam sua cara
de carinho alérgica e avara,
aos que me tacham de ultrabeócia
a pretensão de vir da Escócia,

aos que vomitam (sic) meus poemas
nos mais simples vendo problemas,
aos que, sabendo-me mais pobre,
me negariam pano ou cobre

- eu agradeço humildemente
gesto assim vário e divergente,

graças ao qual, em dois minutos,
tal como o fumo dos charutos,

já subo aos céus, já volvo ao chão,
pois tudo e nada nada são.

Extraído da antologia "Carlos Drummond de Andrade - Poesia completa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 2002, pág. 313.