terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Na Vertigem do Dia" - Ferreira Gullar

Enquanto te enterravam no cemitério judeu do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós


*Poema que F. Gullar fez quando Clarice Lispector morreu. Segundo o poeta, "eu triste com a morte de Clarice e a natureza pouco ligando".

Que lindo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O lugar onde não estou.

O lugar do qual falo é exatamente aonde eu deveria ir. Mas não sirvo. O caminho é estreito e o caminhante, este é falho, não existe. Subverteu a ordem das coisas e morreu antes mesmo de nascer. Ou como diria mamãe, "suverteu", sumiu, dormiu no ponto da existência, comeu a mosca do século. E a cada letra escrita, procuro uma nova vereda. A cada mordida do tempo, abro uma porta pensando ser aquela. A porta que deveria abrir para o mesmo lugar de onde fugi.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O sangue

No peso das minhas pernas eu sinto que ele caminha determinado a chegar. Suas marcas impedem o esvoaçar das saias e vestidos, sua cor salta da pele. Chamo de herança de família, pois foi minha avó foi quem deixou pra mim. Quem sabe a bisa também sentia as pernas doer. É o sangue espesso que corre em minhas veias, vivo e decidido a percorrer cada canto do meu corpo. Mas é nas pernas que ele mais se mostra. Ele mapeia meus membros inferiores e diz que não posso viver andando a esmo. Prediz que preciso de objetivo ao caminhar e não posso ficar gastando passos por aí.
Eu não tive dez filhos como minha avó, ela andou demais. Sendo assim, tenho mais tempo, tenho passos. Sinto medo das meias que prendem o sangue, mas ao mesmo tempo o fazem correr. A circulação promete chegar a todo canto, mas pausa nas pernas, pra respirar.
Penso nas heranças que não recebi de vovó: seus cabelos só branquearam após os setenta, suas mãos que sabiam de cor as receitas de bolos e biscoitos. Um pouco mais conformada eu penso que se o legado for este, preciso lembrar que o sangue que corre em minhas veias também passa pelo meu coração. Se meu sangue conhece um pouquinho do caminho que fazia no coração dela, já valeu o peso das pernas, o branco precoce dos cabelos e a falta de jeito com as panelas.