domingo, 13 de setembro de 2009

Os miseráveis

Vítor nasceu

No Jardim das Margaridas

Erva daninha,

nunca teve primavera.

Cresceu sem pai,

sem mãe,

sem norte,

sem seta.

Pés no chão,

nunca teve bicicleta.

Hugo não nasceu, estreou.

Pele branquinha,

nunca teve inverno.

Tinha pai,

tinha mãe,

caderno

e fada madrinha.

Vitor era ladrão,

Hugo salafrário.

Um roubava pro pão,

o outro, pra reforçar o salário.

Um usava capuz,

o outro, gravata.

Um roubava na luz,

o outro, em noite de serenata.

Um vivia de cativeiro,

o outro, de negócio.

Um não tinha amigo: parceiro.

O outro tinha sócio.

Retrato falado,

Vítor tinha a cara da notícia,

enquanto Hugo

fazia pose pra revista.

O da pólvora

apodrece penitente,

o da caneta

enriquece impunemente.

A um, só resta virar crente.

o outro, é candidato a presidente."


Sérgio Vaz