um domingo
Por isso eu nunca me canso de dizer que certas coisas só acontecem comigo. Logo domingo! Ingênuo da minha parte achar que justamente nesse dia em que nada acontece com ninguém, eu tenha a mesma sorte que o resto do mundo. Escolho almoçar sempre no mesmo restaurante, assim eu diminuo a probabilidade de ser surpreendido. E aí eu sempre digo que gosto de saber o que passa na cabeça das pessoas. Maldito mundo, maldita televisão. É nela que as pessoas inúteis aprendem a ser mais inúteis ainda. É lá que as crianças aprendem que as casas de novela são limpas e que mamãe sempre está preparando o jantar. Só vendo essa porcaria elas começam a aprender a se questionar. Porque moro num chiqueiro? Porque mamãe nunca está?
Voltando ao motivo do mau humor inicial: eu estava lá. Sentado no mesmo restaurante de sempre, sendo servido pelo mesmo garçom ensebado e na mesma hora domingueira. Nunca me perguntei porque escolho botecos sujos com pretenções de restaurante. Deveria desconfiar quando as coisas dão certo porque dessa vez, o ovo frito veio do jeito que eu gosto. Isso nunca acontece. Mesmo. Merda de buteco fedido que toca os mesmos discos do Roberto Carlos todo domingo! Fugi de novo do assunto: os miolos. Não, eu não pedi isso no almoço, acontece que ninguém pediu. Mas deu-se a confusão. Uma dona bem vestida, magra e acinzentada resolveu acabar com a sua entediante vida de espectadora-questionadora-da-realidade-das-novelas bem ali, naquela espelunca calorenta. Ponto. Bem assim, do mesmo jeito que eu saí de casa decidido a comer o bife à cavalo do Bigode, a dona, provavelmente em frente ao espelho e ao lado do seu gato gordo, decidiu que iria se matar no boteco sujo onde faço minhas humildes refeições dominicais. E aí já viu. Juntando meu metódico planejamento para não ser surpreendido, meu ódio pela televisão, o ovo do jeito que eu pedi e a certeza de que certas coisas só acontecem comigo, eu tenho a seguinte cena: estou lá, na frente do prato, prestes a dar a terceira garfada quando uma chuva de miolos cai na minha mesa. A dona, ao invés de ter a delicadeza de ingerir veneno, resolve estourar a cabeça com um trinta e oito ao lado de um cara que não liga a mínima mas que merecia comer o que pediu.