quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

um domingo

Por isso eu nunca me canso de dizer que certas coisas só acontecem comigo. Logo domingo! Ingênuo da minha parte achar que justamente nesse dia em que nada acontece com ninguém, eu tenha a mesma sorte que o resto do mundo. Escolho almoçar sempre no mesmo restaurante, assim eu diminuo a probabilidade de ser surpreendido. E aí eu sempre digo que gosto de saber o que passa na cabeça das pessoas. Maldito mundo, maldita televisão. É nela que as pessoas inúteis aprendem a ser mais inúteis ainda. É lá que as crianças aprendem que as casas de novela são limpas e que mamãe sempre está preparando o jantar. Só vendo essa porcaria elas começam a aprender a se questionar. Porque moro num chiqueiro? Porque mamãe nunca está?
Voltando ao motivo do mau humor inicial: eu estava lá. Sentado no mesmo restaurante de sempre, sendo servido pelo mesmo garçom ensebado e na mesma hora domingueira. Nunca me perguntei porque escolho botecos sujos com pretenções de restaurante. Deveria desconfiar quando as coisas dão certo porque dessa vez, o ovo frito veio do jeito que eu gosto. Isso nunca acontece. Mesmo. Merda de buteco fedido que toca os mesmos discos do Roberto Carlos todo domingo! Fugi de novo do assunto: os miolos. Não, eu não pedi isso no almoço, acontece que ninguém pediu. Mas deu-se a confusão. Uma dona bem vestida, magra e acinzentada resolveu acabar com a sua entediante vida de espectadora-questionadora-da-realidade-das-novelas bem ali, naquela espelunca calorenta. Ponto. Bem assim, do mesmo jeito que eu saí de casa decidido a comer o bife à cavalo do Bigode, a dona, provavelmente em frente ao espelho e ao lado do seu gato gordo, decidiu que iria se matar no boteco sujo onde faço minhas humildes refeições dominicais. E aí já viu. Juntando meu metódico planejamento para não ser surpreendido, meu ódio pela televisão, o ovo do jeito que eu pedi e a certeza de que certas coisas só acontecem comigo, eu tenho a seguinte cena: estou lá, na frente do prato, prestes a dar a terceira garfada quando uma chuva de miolos cai na minha mesa. A dona, ao invés de ter a delicadeza de ingerir veneno, resolve estourar a cabeça com um trinta e oito ao lado de um cara que não liga a mínima mas que merecia comer o que pediu.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Re-postagem

Esse é de 2007, um justa homenagem a quem, nesse ano de 2008 me faz sonhar com 2009.

PORTA-AMOR

Quando eu te amei, eu fui o amanhã
Nem disse nada, eu pensei primeiro
Refiz a vida, esqueci de ontem
Enrolei minhas desculpas num lenço antigo
Fechei bem a porta com trancas de esquecer
De jogar a chave fora
Mesmo com o coração dentro
E pensei em novas palavras
Em como sonhar mais acordada ainda
O sofá perdeu o aconchego
A cama o sossego
Geléia nem tinha graça
Tive medo de mim
Mais dó do que medo
E se eu cansar de pensar?
Bordei na memória todas as palavras
Os cheiros numa garrafa
As cores eu nunca esqueci
Desconfiei da brisa
Mas guardei mesmo assim

Queria só viver de Haikai...

que surpresa boa
minha vida de samba
afinal, é verão

Kakuro

Se em cada esquina
você aparecesse
e uma ou outra Renée
lesse seus olhos
saberia
que o mundo tem jeito
que camélias salvam
que os olhos só vêem
o que não devem
Ai, Sr. Ozu
vim pra te conhecer
e em letras de forma
me formar
Obrigada.

domingo, 14 de dezembro de 2008

natal: tempo de pensar no próximo e de gastar comigo

as luzes que saem dos vidros
servem pra avisar
o que não é pro seu bico

dizer que é sem juros
faz você jurar aos bancos
que vai pagar

quem paga o pato?
se ninguém come isso na ceia de natal
quem paga o chester?

com certeza não sou eu
que ao invés de encher sacolas
mato meu tempo adorando os deuses das vitrines

Wabi

Ela é wabi ao contrário
escrevo porque é certo
ela não chega na metade
desse texto

aqui
ela é capa dura
supõe que finge doçura
acaba sendo ela mesma

outrora
ela é folha escura
adora fazer mesura
quando ninguém vê