sexta-feira, 24 de junho de 2016

o sotaque
é a parte da voz
que não mente

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A menina, a boneca e o sabão

Uma menina
De trança ou sem
Pediu boneca
Ganhou sabão
Só queria brincar
 
Na beira da mãe
E não da saia
Aprendeu fronteiras
Tocou espumas
Que não eram do mar
 
Desde mocinha
Já cheia de beiras
O cheiro do sabão
Tinha o estranho dom
De fazê-la sonhar
 
Um rio corredor
De águas turvas
O vento amigo
Suas espumas
Levou pelo ar
 
Ela via brumas
Espelhos
Letras douradas
Beiradas de livros
A folhear
 
A menina moça
Desdenhou da regra
Que a gente só sonha
Com o que já viu
Em algum lugar
 
Jamais lidos
Um mundo
Que não combinava
Com sabão e sujeira
De roupas que nem eram
Suas

quinta-feira, 14 de março de 2013

As mãos que decidem

Quando minha mãe coloca a Nina no berço e a ajeita com seus panos, penso que ela fica quietinha porque as mãos da vovó simplesmente decidiram. Tem em seus gestos uma firmeza ímpar, talvez até muito delicada. Admiro como estas mãos podem tocar com carinho e destreza, além de dizer com esse toque: "fique bem". E Nina fica. Ela percebe, que, ao contrário dos meus gestos amorosos e ainda desajeitados, as mãos da vovó sabem o que estão fazendo. As minhas mãos vão cheias de boa intenção mas ainda pecam por não decidir.
Fico feliz ao pensar que ajudei estas mãos a serem assim, afinal, quando filha primeira, fui eu quem minha mãe acalentou pela primeira vez. De certo modo, eu e meus irmãos também preparamos estas mãos para que recebessem a Nina.
Olhando agora minha filha no colo de minha mãe, tenho certeza que estas mãos de avó decidiram, neste instante, que a felicidade existe.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

a tevê que me vê

lá no alto ela olha pra cá
de onde eu deveria ver
ela é sua foi nossa ela é minha
uma tela sozinha
sem antena, sem LED, LCD
ela é caixa robusta
a tevê que ninguém vê
não pega canal algum
não sai do ar no fim da novela
ela é apenas ela
sobra que encaixa o vazio
e espera cobrir menor desvio
aguarda mostrar imagem
sedenta por um clique
ou óbvio chilique
de vilã de um folhetim
atávico objeto de mostrar o nada
me mostra, desconsolada
o breu, meu e seu.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Tramela

feito ele que prefere beber o leite talhado
a cheirar antes
igual ao efe do teclado que cisma em não aparecer
e todos os filmes que teimam em terminar sem final
como o sorriso que mudou de destinatário e não encontra remetente
a hora da estrela que nunca estreia porque seu espetáculo é decadência
igual a todo mundo que detesta o gosto estranho
de desaparecer antes do fim
o ooô daquele carnaval que passou (o nosso primeiro)
de cadência em cadência
somos todos
o pavor de existir

E teve aquele dia
em que você desistiu de me levar ao karaokê
e a gente acabou comendo pizza
de três reais o pedaço
só com queijo
eu, expert em bula de remédio,
não li a reação adversa
nos seus olhos envergonhados
enquanto o carro dava ré sozinho
a gente voltava pra casa
pra mim mais um dia entrecortado
por uma noite estranha
pra você, o fim

domingo, 16 de dezembro de 2012

Quando um pequeno mundo acaba

quando um pequeno mundo acaba
um mundo sem latifúndio, sem capital e com poucas metas
quase ninguém dá falta
povo nenhum faz previsão da natureza finita desse mundo
ele apenas termina, assim...assim
muitos viventes desse mundo, nem dão conta que ele acabou
e prosseguem caminhando a esmo
pisando pegadas que não serão impressas nos caminhos do fim do mundo
tem gente que ouve até canto de pássaro
nesse mesmo mundo, o que já não existe
uns escutam, saudosos, uma canção do passado
outros teimam em querer verter assunto, sobre esse mundo, o que acabou!