Horizontem
Um homem calça a meia pela manhã. Ou pela metade. Ele se esquece do boleto bancário. Se desespera. Transpira. Desiste. Vai assim mesmo enfrentar o dia e tomar o pingado da esquina. Toma também o ônibus lotado. Não se lembra mais dos avós. Acha que um dia será velho. Tem medo. Ele olha a esquina e pensa que tem sorte: hoje não chove. Joga no bicho. Ignora o mendigo, esquece a fome. Esse homem não tem precaução. Não sabe o que é seguro, não tem plano de saúde. O pai sumiu, a mãe não aguentou. Ele acha que as pessoas podem morrer de tristeza. Tem medo de novo. Tem medo do novo também. Ele corre. É transparente. Ninguém vê os calos na mão. Cruza a rua. Descruza os braços. Pega a fila. Desanima. Pensa que hoje aparece uma oportunidade. Ou pelo menos uma trégua. Suspira. Agradece por não amar ninguém. Menos uma conta a pagar.