quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Horizontem

Um homem calça a meia pela manhã. Ou pela metade. Ele se esquece do boleto bancário. Se desespera. Transpira. Desiste. Vai assim mesmo enfrentar o dia e tomar o pingado da esquina. Toma também o ônibus lotado. Não se lembra mais dos avós. Acha que um dia será velho. Tem medo. Ele olha a esquina e pensa que tem sorte: hoje não chove. Joga no bicho. Ignora o mendigo, esquece a fome. Esse homem não tem precaução. Não sabe o que é seguro, não tem plano de saúde. O pai sumiu, a mãe não aguentou. Ele acha que as pessoas podem morrer de tristeza. Tem medo de novo. Tem medo do novo também. Ele corre. É transparente. Ninguém vê os calos na mão. Cruza a rua. Descruza os braços. Pega a fila. Desanima. Pensa que hoje aparece uma oportunidade. Ou pelo menos uma trégua. Suspira. Agradece por não amar ninguém. Menos uma conta a pagar.

Querido

A varanda é uma janela oferecida
e a poeira é só vontade que o chão tem de voar
agora me diz:
as flores que crescem, um dia feliz
não parece que nascemos e vivemos por um triz?

Se você me confirmar
que quer mais do que viver
eu não posso mais deixar a vida nos surpreender
o dia que passa, no rádio a canção
só me ocorre esconder toda a alegria no colchão

É medo que eu tenho
perdoe, faça um favor!
não conte pra ninguém onde guardamos nosso amor.

O dó da morena

Soube que você tem dó de mim
Verdade?
E o seu dó dói tanto quanto esse nó no peito meu
Se agora é tão doído meu amor que já foi seu
Se um dia meu pesar bem devagar encontra o seu

Nessa calçada cansada de pisar
Meu coração mastigado
Por esse doer sem pecado
Coitado!

Ainda bem que, menina!
Essa vida tem esquina
Onde se vê cada sina!
Pague pra ver seu viver
Deixe seu dó na poeira

Um dia você há de ver
Com esses olhos de pena
Que cada pingo desse carinho
Valia a pena

Apelo - Dalton Trevisan

"Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor".

sábado, 7 de fevereiro de 2009

a criança brinca em silêncio
e ninguém vê

quando alguém alcança uma graça
se esquece de agradecer

se a carta traz boas novas
você demora pra ler

a hora de calmaria
não aparece na tevê

basta ser simples
para a Terra não saber