sábado, 30 de maio de 2009

Comentário após Minas

O Nelson Rodrigues dizia que o mineiro só é solidário no câncer. Mas eu, eu quero que o meu interior seja como o interior de Minas: todo mundo se conhece, se abraça, troca receitas e coleciona pôr-do-sol.

A viagem

Eu chorando no aeroporto porque existe a mulher da limpeza que parece ser míope e ter um filho na cadeia onde ela vai uma vez por semana ser revistada e levar cigarros.

Eu chorando no aeroporto com dó daquela cantora com olheiras de panda que surtou em Portugal e agora escreve um livro pra contar como foi.

Eu chorando no aeroporto de novo me lembrando dos velhos que vivem de solidão enquanto alguém do meu lado diz que se plantamos abacate não há como colher morangos.

Eu chorando no aeroporto por saber que o mundo acaba de receber mais um filho sem pai e mais uma mãe que acredita que é melhor assim.

Eu chorando no aeroporto quando mais uma alma boa vai-se embora da Terra no mesmo instante em que muita gente pede pra morrer mas ainda não está na hora.

Eu chorando no aeroporto pois vejo um homem que sabe tudo sobre um vinho que nunca irá tomar e ao seu lado está uma mulher que não tem certeza se vai estar viva amanhã.

Eu, mais uma vez, chorando no aeroporto porque me sinto mais inútil do que a saída de emergência do avião.

domingo, 17 de maio de 2009

Tessituras

da mais antiga forma de vida
surge a indagação:

aonde ir, sem um porvir
a quem dar a mão?

se futuro não se importa
com o que mereçe correção

desde que você chegue a tempo
e pegue o último vagão

para onde vagar?
depressa ou devagar?

sábado, 2 de maio de 2009

sim, sou velha.

Constantemente me chamam de algo que sou: velha. Ainda não tenho rugas. Fios brancos são só dois que teimam em crescer apesar dos meus avós terem poucos. Confesso que tenho xales e broches no guarda-roupa mas não é isso. Ser velha não é isso. Cadeira de balanço não há, falta espaço. Sou velha no caminhar, sempre lento e preguiçoso ou a correr pra alcançar os anos. Eles sim vão a galope. Já vi que não adianta pois, o meu tempo passa enquanto durmo sonhando outras épocas. Gosto de costura. Mania de velha? Colcha de retalhos, pois sim! Baús e porta-jóias: muitos!
Digo sim, sou velha no viver, no esperar. Sou velha nos conselhos velhos que dou a quem não quer ouvir. Tenho netos imaginários que correm pela casa a derrubar as panelas e cutucar os tachos de doces. Mas tenho história. Senão as minhas, as dos outros. Ainda tenho memória. E me orgulho de lembrar dos detalhes dos guardanapos de linho das mesas dos banquetes idos. Sei de cor o olhar dos filhos meus quando me deixaram aqui. Querem vir me buscar? Peço por favor me deixarem em paz com as lembranças do que um dia eu serei.