quinta-feira, 31 de maio de 2007

PELA CALÇADA

pensamento usado
para cabeça cheia
janela aberta
para tristeza na rua
festa para o tédio
encosto para o prédio
ferro
para o que já passou
cobre
o que ninguém viu
cadeira pro vento
parar de passar
o mundo pra cima
e o ar de pernas
para o ar
é assim quando você passa

segunda-feira, 28 de maio de 2007

SÃO TOLICES


botei tranca até no teto. do meu coração não sai mais nada, nem entra.
ela disse isso com a convicção dos 16 anos e das maõs lisas de lida. ninguém precisou duvidar.
um outro que desceu das estrelas com a petulância dos 20 tratou de desfazer o engodo.
mostrou com seus dedos calejados de cuidar que trancar não resolve.
muito menos avisar que trancou.

domingo, 27 de maio de 2007

EM FRENTE

é com muito pesar que digo
a realidade não me morde mais
estou pronta pro mundo
acabada de sensatez
não me preocupo se há alguém
na espreita, à espera, rindo atoa
só consigo estar presa na razão
não me ocupo mas sempre culpo alguém
esqueço de me redimir
suporto falsas agonias
desde que não sejam as minhas
e longe se vai devagar a dúvida
que antes batia a cabeça na parede
agora ela é estrada inerte
sem rastro, com a lua de cima olhando
não gosto de viver certezas, mas amanhã
eu não consigo ser mais assim

sábado, 26 de maio de 2007

CONSTATAÇÃO

ele chega cansado
um banho morno
monotonia
o dia sem gosto
ver as tarefas
saber da vida
bolachas na mesa
luz tardia
o sono nem vem
e ela se foi
o menino ficou
sem fraldas
isso é fato
chora um pouco
a dor da mãe
é tarde pra amá-la
carinho nas costas
assim ele pensa
um filho mais forte
pronto pra vida
que nunca se esqueça
de quem não estava lá

quinta-feira, 24 de maio de 2007

ANIMA

hoje eu acordei com o dia na cara
e noite pelo travesseiro afora
correndo de mim
corre noite, chega dia
só sei que é melhor
alguém tem que se esconder
e não foi o dia que sumiu
ele ardeu forte
e eu quis assim esse dia
que fosse história, fosse revoada
os pés fora da cama
o sol na calçada
a claridade é assim
nos anima
mas logo mostra onde não podemos pisar

sábado, 19 de maio de 2007

O BARULHO DE EXISTIR

somos o silêncio de décadas

a saudade na janela

e a necessidade de carteiro

somos o coronel

para quem ninguém escreve

e queremos ser lembrados

por tempos depois de existirmos

precisamos do barulho da memória

chacoalhando numa caixa antiga

enterrada na gaveta do tempo

um som de caixinha de música

a página virada de um álbum amarelo

existir é ser ouvido

mesmo que baixinho

na esquina do tempo

na dobra de uma lembrança vaga

RISO PARA DENTRO

Eu agora rio de você
não um rio vazio
mas uma risada com gosto
daquela que fura a alma
Você que ri de tudo
que se acha engraçada
e usa tudo no diminutivo
E eu odeio as palavras inhas
melhor ouvir suas dores
do que sentir as minhas
e por enquanto
no canto da boca
eu só posso rir para dentro
dos seus planos ridículos
suas cismas de fantasia
a alegria por um triz
nas palavras incoerentes que você diz
Se eu fosse você diria pra dentro
sozinha numa luz mortiça
aí vai mais um conselho meu
se não pode sem alarde falar
planeja seus desvarios só
pois assim é o rio mais manso
aquele que corre sem barulhar

quinta-feira, 17 de maio de 2007

PROMISSÓRIAS

numa caixinha de sapatos
cabem as coisas que amamos
amo eu, ama você, amamos todos
mas não é tão simples
é raro assim
não ter as fotos
não ver o dia
raiar do seu lado
eu não ligo e não digo se ligo
é como deixar a caixinha
ao lado da cama
sem pôr fim
querer que seja assim
você não vem buscar
nem eu devolvo
e andamos por ali
nesse mundo a bailar
querendo os porquês
que dizem que eu do seu lado sou melhor
e alertam que comigo você é
até melhor em português

domingo, 13 de maio de 2007

PRATODODIA

é como ter a porta sempre aberta
e saber que por ela ele não entra mais
é ter a comida no fogo
esquentando pra alguém que não tem fome
olhar de lado e não conhecer mais
esse dia raiando mais triste que um breu
é contar as moedas para a batalha
e ver que só sobrou o vazio no tilintar das horas
não se importar mais com o verde da horta
se os meninos têm frio ou foram dormir
ou se sumiram por não aguentarem te ver na escada
fingindo que alimenta as galinhas
vestida de trapo pensando que é renda
em eterna prece por um horizonte
cortado pelas patas de um cavalo
que vem espantando os pássaros
mas que com certeza faria você cantar de novo

sábado, 12 de maio de 2007

REM

olha que lá vem ele de novo
sacudindo a poeira
rindo risonho
do longo sono
foi dormir obrigado
deixado de lado
cobertor velho, eu que sei!

mas agora é tarde
eu que não quero sossego
dispensei as desculpas
eu vim pra ficar
ou eu tomo conta da casa
ou fico num canto
que é meu lugar

quem mandou?
colocar para dormir
um amor que acabou de acordar.

terça-feira, 8 de maio de 2007

É

você
que sonhou o sonho dela
prepare-se
ela não sabe mais sonhar
perdeu o jeito
e quer aprender
a nunca mais saber

ela riu
quando ele disse
que num mundo tão sujo
ela é a menina da letra bonita
ele que só fala por dizer
lê
no olho a alma dela
cansada de sonhar
ele mente mas sabe
mentir as coisas
que ela precisa
um mundo mais perto
mesmo que seja incerto
palavras baratas
destino cruel

é,
moço
você falou bonito demais...

sábado, 5 de maio de 2007

ENTRE

e o amor que cor que é, não sabemos. parece que a razão é arco-íris. mas em tempo de sol forte ela não vem. ela tem medo de queimar e arder. por isso na sombra de um chapéu ela aparece. mas só lá. conosco é assim. cor de mel é a dúvida, essa sempre vem. faça chuva ou faça sol, chega sem avisar. ela sabe ser doce quando a gente deixa a porta entreaberta. mas não pode mostrar que esperou muito, senão ela vai embora sem motivo. o medo nós nunca vimos. acho que ele não gosta de ar puro, e aqui tem muito. talvez ele tenha visto a casa aberta. com arco-íris, chuva e sol. e percebeu que aqui, acolhemos todos, mas não convidamos ninguém.

DUAS OU TRÊS VONTADES

subindo a serra
sentindo frio
ela pedia perdão
pelo que queria
e pelo que não podia querer

eram só duas
ou três vontades
uma
da madrugada

será pecado?
querer calor
ralhar com a vida
com o desamor

ela não sabia
só queria
queria
queria

sexta-feira, 4 de maio de 2007

O TEMPO JÁ VOLTA

a parte mais feia de mim
não é aquela cicatriz que tenho na testa
feita correndo ao redor da mesa de centro
dando risadas por coisa alguma
no meu aniversário de 2 anos
minha mãe se lembra bem

feliz por um disco
um moranguinho
inconstante num instante
lá estava eu virando gente
querendo ser
rodeada de atenção
com papai babando
e nem sinal de irmão

a parte mais bonita
é querer ser hoje, a menina de ontem
numa vida menos doce
sem os discos de vinil
mas ainda batendo a cabeça de vez em quando
disposta a cicatrizes e cuidados
pelas coisas que ama ou quer amar

terça-feira, 1 de maio de 2007

EU NÃO ABRI