BALÉ
hoje vi um homem sem um braço
o direito
não o homem, o braço
ele tinha um crachá pendurado no peito
e a manga do braço faltoso estava enfiada em suas calças
confesso minha súbita pena
que assumo ser melhor que o descaso
é que eu tive dó da camisa
do oco da manga comprida
do vazio deixado
cabisbaixa eu pensei nesse homem se vestindo
e colocando distraído a manga para dentro das calças
como se não houvesse outro jeito
e não há mesmo
imaginem a manga solta
num vai-e-vem inútil tentando acompanhar o braço que ainda está lá
já vejo o sol se infiltrando no tecido amassado
e fico perturbada só de pensar
na coreografia desajeitada da manga órfã
balançar, balançar
tive vergonha
e olhei minhas mãos pela última vez