quinta-feira, 29 de maio de 2008

BALÉ

hoje vi um homem sem um braço
o direito
não o homem, o braço
ele tinha um crachá pendurado no peito
e a manga do braço faltoso estava enfiada em suas calças
confesso minha súbita pena
que assumo ser melhor que o descaso

é que eu tive dó da camisa
do oco da manga comprida
do vazio deixado
cabisbaixa eu pensei nesse homem se vestindo
e colocando distraído a manga para dentro das calças
como se não houvesse outro jeito

e não há mesmo
imaginem a manga solta
num vai-e-vem inútil tentando acompanhar o braço que ainda está lá
já vejo o sol se infiltrando no tecido amassado
e fico perturbada só de pensar
na coreografia desajeitada da manga órfã
balançar, balançar

tive vergonha
e olhei minhas mãos pela última vez

quarta-feira, 28 de maio de 2008

!

Eu me vejo pisando nos seus passos, que vêm antes dos meus. Naqueles pedacinhos de cartolina verde, que você usou para legendar nossas fotos. Quando eu ainda era barriga.
Já falei com alguém sobre como cruzar as pernas ao ler. Eu aprendi contigo. O faro para as boas coisas da vida. Também. Eu perdi meus dentes mas me lembro dos seus, brilhando. Verdade que essa lembrança é bem infantil, de dentes reluzentes de desenhos animados. É a semana do seu aniversário e me vi comemorando longe, sozinha. Ri por dentro. Tenho vontade de te dar uma biblioteca igual a do Mindlin. Ou folhas em branco para você desenhar riscos que logo saem do papel. O primeiro presente de páginas douradas: Monteiro Lobato e eu nem sabia ler. As coleções. A boneca preta. O estojo de lápis. A conta aberta no jornaleiro. Sorvete napolitano. As pessoas sempre indo e vindo. Você vê beleza nisso, em rodoviárias. Meu terno de pássaros ao sul. O embrulho de pastel. O remorso após a briga. Engraçado, você não me ensinou a brigar.

sábado, 24 de maio de 2008

SOLD OUT

hoje vi um algo que ainda não tenho
corri até a prateleira e pus as mãos com gosto
não largo mais
essa coisa é mais do que supérflua

ela estanca dores a curto prazo
mas traz à tona agonias irremediáveis

vou dar aos amigos
mais fôlego para novos dias
empresto essa coisa que não presta
e só ocupa lugar em meus bolsos

ultimamente ando preocupada
com extravagâncias que ando fazendo
comprando o que estão vendendo
resolvo uns dois problemas

descanso de mim na prateleira
e ainda me esqueço de você por breves segundos

me ocupo com a poeira dos espaços que sobram
e me lembro:
adoro o inútil

quarta-feira, 21 de maio de 2008

TRECHO

a bota que afunda a perna
come os meus pés
a sola que te cola ao chão
cobre o tempo que te faz andar
o cano que enxerga a têmpora
na verdade esconde meus joelhos
descalça eu aliso a pedra
que a bota não sente de dentro
do bico fofo que abriga os dedos
e o calo que há tanto tempo tenho
não dói mais

A nossa região

eu risco agora um mapa
na cabeça
faço linhas na testa
bem no meio
são retas concisas
às vezes pontilhadas
importante:
só nós enxergamos as letras
me parece um ligue-os-pontos
infantil

uma unidade distinta
sem trilhas nem milhas
união de duas províncias
vencidas numa guerra nada fria

uma Macondo sem ruas
mas ainda mágica
sem distritos
uma ilha Redonda

todo o tráfego
passa por lá
mas nesse lugar,
quando ninguém ganha
todos comemoram

construímos assim
nossa praça ajardinada
da Paz Celestial
e estamos nela
riscando esses caminhos de agora

sexta-feira, 9 de maio de 2008

RRR

o lixo me fez bicho
e me fez rir de você
a sacola azul me dá náusea
e assim eu reviro nossos rejeitos

apodrecemos juntos
e é uma decomposição lenta e perfumada
somos dor e amor
somos caixas de empanados, suco e papelão

juntos somos mais sacolas, etiquetas e poeira
abra o balde e descubra nossa vida
meu jeito e sua fome
nossos hábitos

saiba:
não é fácil
dividir o mesmo lixo

MuriloLindo

O utopista

Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro no mundo.

Murilo Mendes

quarta-feira, 7 de maio de 2008

07.05.08

Li agorinha: "É raro encontrar um amor, mais raro merecê-lo"
Pode ter sido em um outdoor que anunciava promoção de motel
Até em um livro de poesia velho de cabeceira
Ou um de sebo chamado Samantha
Acho que li em nós
Li em nossas mãos dadas embaixo do cobertor, bem no começo, naquela sala minúscula
Li no sopro que sua risada faz no meu rosto, um vento morno que aquece minhas noites
Li nos quilômetros que você percorre até mim, nessa cidade linda e inacabada
Li em seus olhos ao acordar, cheios de vida, sol e brisa
Li nos seus gestos indecisos, que procuram nunca escolher entre um beijo e um afago, preferindo sempre os dois.
Li no mundo que temos pela frente. Nesse que nos espera com palavras a apagar, emendar e escrever. E frases pela metade que nunca conseguirão resumir nosso querer.