quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Nem lembrava de tantos eus.

Eu ainda acordo com sono mesmo não acordando ao seu lado.
Eu ainda lavo os cabelos todos os dias, e quando falho um, prendo pra disfarçar.
Eu escondo meus erros de português a qualquer custo e ainda me assusto, mesmo sem você pra me assustar.
Eu não escrevo tanto mais. É difícil desviar o caderno ou cobrir o rosto, antes que esta lágrima borre tudo.
Mas eu ainda me olho muito no espelho, e sei que ninguém me aguarda
com uma doce impaciência folheando uma revista aqui do lado.
Eu olho menos as vitrines. Bem menos. Sei que você não vem puxar minha mão enquanto eu continuo querendo olhar.
Não tenho mais prazer em sobremesas. Não quero um doce incapaz de me tirar o amargo da boca.
Eu rezo mais. E peço menos. Eu olho mais ao meu redor e isso dói ainda.
Eu tenho vergonha da minha dor enquanto assisto tantas tragédias no jornal.
Eu ainda reclamo do frio. Não imagino outros braços, não sinto outros olhos. Ainda rio de carecas.
Eu brigo comigo mesma quando não consigo segurar o choro.
Eu ainda tenho medo, mas não é de ver o que não existe. É de ver que você não está.
Eu ainda acho lindo o dia ensolarado junto ao céu azul. Perto da banca de revistas é ainda mais azul.
Eu ainda esqueço as chaves.
Eu evito as calçadas que dividíamos com amor. Eu vou pelos becos.
Eu ainda acaricio a revista que você gostaria de ler. E corro pra casa pra contar sobre uma banda que é a sua cara. Eu quebro a cara.
Eu tremo toda e agacho quietinha no chão do banheiro. O chuveiro abafa os soluços.
Eu acho que tenho tomado banhos demais.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Na Vertigem do Dia" - Ferreira Gullar

Enquanto te enterravam no cemitério judeu do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós


*Poema que F. Gullar fez quando Clarice Lispector morreu. Segundo o poeta, "eu triste com a morte de Clarice e a natureza pouco ligando".

Que lindo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O lugar onde não estou.

O lugar do qual falo é exatamente aonde eu deveria ir. Mas não sirvo. O caminho é estreito e o caminhante, este é falho, não existe. Subverteu a ordem das coisas e morreu antes mesmo de nascer. Ou como diria mamãe, "suverteu", sumiu, dormiu no ponto da existência, comeu a mosca do século. E a cada letra escrita, procuro uma nova vereda. A cada mordida do tempo, abro uma porta pensando ser aquela. A porta que deveria abrir para o mesmo lugar de onde fugi.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O sangue

No peso das minhas pernas eu sinto que ele caminha determinado a chegar. Suas marcas impedem o esvoaçar das saias e vestidos, sua cor salta da pele. Chamo de herança de família, pois foi minha avó foi quem deixou pra mim. Quem sabe a bisa também sentia as pernas doer. É o sangue espesso que corre em minhas veias, vivo e decidido a percorrer cada canto do meu corpo. Mas é nas pernas que ele mais se mostra. Ele mapeia meus membros inferiores e diz que não posso viver andando a esmo. Prediz que preciso de objetivo ao caminhar e não posso ficar gastando passos por aí.
Eu não tive dez filhos como minha avó, ela andou demais. Sendo assim, tenho mais tempo, tenho passos. Sinto medo das meias que prendem o sangue, mas ao mesmo tempo o fazem correr. A circulação promete chegar a todo canto, mas pausa nas pernas, pra respirar.
Penso nas heranças que não recebi de vovó: seus cabelos só branquearam após os setenta, suas mãos que sabiam de cor as receitas de bolos e biscoitos. Um pouco mais conformada eu penso que se o legado for este, preciso lembrar que o sangue que corre em minhas veias também passa pelo meu coração. Se meu sangue conhece um pouquinho do caminho que fazia no coração dela, já valeu o peso das pernas, o branco precoce dos cabelos e a falta de jeito com as panelas.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Horror vacui

Ela chega com olhos quebrados:
- meu filho é doente. não sabe viver.
Não digo nada. A ética profissional impede.
Mas no lugar dele, não saberia também.
Ele quer morrer, porém não acha a morte suficiente. Concordo.
Sua morte vai deixar rastro.
A genética, a genética. Ela culpa.
Percebo que a fome ensina, a culpa não.
Não sei encarar de frente quem não gosta da vida.
Preciso aprender. A cada dia vem mais gente assim.
Enquanto eu não sei, um aviso:

Mães, não existe um lugar para onde enviamos filhos indesejados que não sabem viver.

sábado, 7 de agosto de 2010

Porta-amor


Quando eu te amei, eu fui o amanhã
Nem disse nada, eu pensei primeiro
Refiz a vida, esqueci de ontem
Enrolei minhas desculpas num lenço antigo
Fechei bem a porta com trancas de esquecer
De jogar a chave fora
Mesmo com o coração dentro
E pensei em novas palavras
Em como sonhar mais acordada ainda
O sofá perdeu o aconchego
A cama o sossego
Geléia nem tinha graça
Tive medo de mim
Mais dó do que medo
E se eu cansar de pensar?
Bordei na memória todas as palavras
Os cheiros numa garrafa
As cores eu nunca esqueci
Desconfiei da brisa
Mas guardei mesmo assim

terça-feira, 3 de agosto de 2010

e ter a morte tão perto
é saber que não se sabe ao certo
quando vai partir

ter o sorriso a um palmo
é ao mesmo tempo
nunca sorrir

a saber

que cada dia após
a sua vida viver
ela conferiu
uma a uma
as possibilidades
e concluiu
que foi feliz
fez amizades
não foi atriz
nem quis
não casou
mas amou
demais

estranha novela
ora eu, ora ela
a perceber que aquela
nos fez imagem e semelhança
dela

o vício do hábito
a olhar o céu bonito
essa sou eu
viciada em habitar
o infinito.

domingo, 27 de junho de 2010

Solidão de passarinho.

em um vôo noturno
passou por nós
no meio da estrada
entre os faróis
rasgou o ar, surgiu
e por um segundo
você também viu

pensei no passarinho
que de dia voa
seu balé surge belo
até quando aproa
nos raios de sol
diz a que vem
o intuito do ninho
não engana ninguém

o sozinho na noite
que voou entre nós
se foi tão depressa
que nem o vento viu
a flor de uma árvore
para ele se abriu
e após breve sopro
desistiu

sábado, 5 de junho de 2010

Passando a roupa a limpo

Eu tenho muito mais pena dos que foram e não são mais, porque quem nunca foi não sabe como é ter sido.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

eu sei o que me espera:
a ternura do reencontro
os versos de um poema velho
a certeza da hora exata
e a estupidez do barulho
após o reinado da calma

resolva

eu não posso me esconder
ignorar, não ver
está em mim, em nós, em você

eu só devo espairecer, esquecer
e divagar
talvez só uma vez calar

sem no entanto
deixar de falar
eu vou dizer com o olhar

se eu decidir não fico
nem mais um minuto
nesse lugar

eu finjo que o mundo
todo, inteirinho
acabou de acabar

e peço uma valsa
toada, seresta, cantata
danço um tango
faço um samba

e espero o dia clarear

terça-feira, 27 de abril de 2010

Ter
Poder
Não ser
Bater-se
Ouvir-se
Olhar-se
Puxar-se
Mexer-se
Fincar-se
Esticar-se
Moldar-se
Formar-se
Remexer-se
Entender-se
Reformar-se
Reconhecer-se
Guilherme Ferreira
Transformar-se
Endurecer-se
Deformar-se
Amolecer-se
Repensar-se
Assumir-se
Adaptar-se
Aceitar-se
Iniciar-se
Mudar-se
Sentir-se
Fazer-se
Crer-se
Dar-se
Saber
Amar
Ser

quinta-feira, 8 de abril de 2010

serei

na pele do cotidiano está a calma de não agir
ao escolher quando já não tenho escolha
proponho amar quem jamais existiu
escapa ao meu corpo o passo já dado
o que nunca vivi se chama passado

tento me ser e sei que não sirvo
fadada ao eterno dilema de não decidir
mas bem melhor do que não existir

quarta-feira, 31 de março de 2010

se
a
obra
é
a
soma
das
penas
pago
mas
quero
meu
troco
em
poemas

Alice Ruiz

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Terra alheia (Siervo sin terra) - Eduardo Caballero Calderón

"Siervo chegou à praça de Chiquinquirá com dois vergões nos joelhos, pois quando o caminhão freava súbitamente, porque assim tinha ganas o chofer, ia de bruços contra o tabuão dianteiro, ao mesmo tempo em que recebia nos rins uma joelhada do vizinho de trás. Transito tinha a saia negra ruça de pó e pisoteada, como se o caminhão com todos os passageiros houvessem passado por cima dela. (...) os prantos do menino e o odor acre que o caminhão desprendia fizeram-na enjoar, com desejos de atirar-se de cabeçana estrada para morrer de uma vez.
Apesar das torturas que padeceram e dos sustos por que passaram, pois o chofer, meio adormecido, estivera a ponto de despedaçar-se na ponte da estrada de Duitama, Siervo teve a coragem de dizer, quando os descarregaram na praça de cima de Chiquinquirá com Olaya e o cachorro:
- Temos que reconhecer que a viagem foi muito bonita!"

Esse relato, que me faz ter vontade de chorar toda vez que o leio, mostra uma pessoa que mesmo passando por tantas desgraças, consegue enxergar a beleza da vida. E olha que esse trecho mostra apenas o menor dos males que acomete Siervo Joya ao longo do livro.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

América - Drummond

“Sou apenas um homem.
Um homem pequenino à beira de um rio.
Vejo as águas que passam e não as compreendo
(…) Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.
O rosto denuncia certa experiência.
A mão escreveu tanto - e não sabe contar !
(…) Sou apenas o sorriso
na face de um homem calado”

Minha tarefa é fazer você ouvir. Minha tarefa é fazer você sentir. E, acima de tudo, fazer você ver. Isto é tudo. E é muito.

Joseph Conrad

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

e a cada amanhecer
eu sigo sendo
a maior decepção
de todos os tempos
e a cada devagar
eu sigo rápido
atrás de tudo
que não entendo
e a cada segundo que morre
a gente
que não é bobo nem nada
segue vivendo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

genograma

remexendo no porão do tempo
descubro:
tive um tio-avô lobisomem
e meu pai não foi padre
todos os primos se casaram entre si
e povoaram a cidade com pessoas estranhas
vovó tem certeza que morre esse ano
desde oitenta e três
meu avô matou um homem
feriu outro e foi deserdado
fomos uma família muito rica
em que uma amante herdou tudo
e achou justo dividir com a esposa