Nem lembrava de tantos eus.
Eu ainda lavo os cabelos todos os dias, e quando falho um, prendo pra disfarçar.
Eu escondo meus erros de português a qualquer custo e ainda me assusto, mesmo sem você pra me assustar.
Eu não escrevo tanto mais. É difícil desviar o caderno ou cobrir o rosto, antes que esta lágrima borre tudo.
Mas eu ainda me olho muito no espelho, e sei que ninguém me aguarda
com uma doce impaciência folheando uma revista aqui do lado.
Eu olho menos as vitrines. Bem menos. Sei que você não vem puxar minha mão enquanto eu continuo querendo olhar.
Não tenho mais prazer em sobremesas. Não quero um doce incapaz de me tirar o amargo da boca.
Eu rezo mais. E peço menos. Eu olho mais ao meu redor e isso dói ainda.
Eu tenho vergonha da minha dor enquanto assisto tantas tragédias no jornal.
Eu ainda reclamo do frio. Não imagino outros braços, não sinto outros olhos. Ainda rio de carecas.
Eu brigo comigo mesma quando não consigo segurar o choro.
Eu ainda tenho medo, mas não é de ver o que não existe. É de ver que você não está.
Eu ainda acho lindo o dia ensolarado junto ao céu azul. Perto da banca de revistas é ainda mais azul.
Eu ainda esqueço as chaves.
Eu evito as calçadas que dividíamos com amor. Eu vou pelos becos.
Eu ainda acaricio a revista que você gostaria de ler. E corro pra casa pra contar sobre uma banda que é a sua cara. Eu quebro a cara.
Eu tremo toda e agacho quietinha no chão do banheiro. O chuveiro abafa os soluços.
Eu acho que tenho tomado banhos demais.