segunda-feira, 22 de agosto de 2011



só viro poesia quando faço tristeza
um belo dia acordo e o mundo é uma mina
cheio de pedra-palavra esperando o garimpo
vejo o sol e é como uma prece
então sinto que o verso morreu
a tremenda aventura de quem tenta a rima
e nunca saber quando a merece

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Macanudo - Liniers

segunda-feira, 28 de março de 2011

como são coerentes, os seres humanos!
dotados de cabelos e caráter
esperando um trem que nunca vem
arrancando os cabelos
perdendo o caráter
sofrendo acordado e sonhando dormindo
o sofrimento é antes de tudo, coerência.

Pra você, meu bem, de longe...

me represo quando procuro saídas
e hoje vi um beija-flor bem pequeno
me acuso assim que furo barreiras
logo cedo quase saio voando
é só vontade de falar com você
a estrada é bem velha, reta, seca
o novo ano logo vem
e eu vou ouvir
da boca da sua janela
todos os pássaros do mundo
cantando
te amo


ps: escrito em dois mil e sete, feliz como o quê.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Latin Lover - João Bosco / Aldir Blanc

Nos dissemos
que o começo é sempre,
sempre inesquecível,
e, no entanto, meu amor, que coisa incrível,
esqueci nosso começo inesquecível.
Mas me lembro
de uma noite
sua mãe tinha saído,
me falaste de um sinal adquirido
numa queda de patins em Paquetá:
mostra... doeu?... ainda dói?...
A voz mais rouca,
e os beijos,
cometas percorrendo o céu da boca...
As lembranças
acompanham até o fim um latin lover,
que hoje morre,
sem revólver, sem ciúmes, sem remédio,
de tédio.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Epígrafe de Adriana Zarri, crítica do antimodernismo dos Papas, poetisa, eremita e teóloga. Faleceu no dia 18 de novembro de 2010 com mais de 90 anos.

"Não me vistam de preto: é triste e fúnebre. Nem me vistam de branco porque é soberbo e retórico. Vistam-me de flores amarelas e vermelhas e com asas de passarinho. E Tu, Senhor, olhe minhas mãos. Talvez tenham colocado um rosário, talvez uma cruz. Mas se enganaram. Nas mãos tenho folhas verdes e sobre a cruz, a tua ressurreição. E sobre minha tumba não coloquem mármore frio com as costumeiras mentiras para consolar os vivos. Deixem que a terra escreva, na primavera, uma epígrafe de ervas. Ali se dirá que vivi e que espero. Então, Senhor, tu escreverás o teu nome e o meu, unidos como duas pétalas de papoulas".

terça-feira, 1 de março de 2011

Sobre os velhinhos

Velhinhos me comovem. Sei que existem velhos canalhas, mas fico sensibilizada de verdade em ver idosos em certas situações.
Ontem estava num bar e tinha um velhinho vendendo umas pinturas bonitas que ele mesmo faz. Ele ficava levantando uma a uma, parado num canto e esperando ser olhado. Ninguém olhava.
Eu fico assim gostando da velhice de hoje porque tenho medo dos velhos do futuro, que no caso, seremos nós. Imagino que será difícil a delicadeza dessa idade resistir ao massacre da covardia, afinal, os idosos de amanhã serão as pessoas que hoje atropelam ciclistas, jogam crianças pela janela e...abandonam seus velhos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Me pediram pra inventar uma memória.

Lá em casa um abismo profundo sempre esteve entre meus pais: o estudo. Minha mãe nunca foi "boa aluna", sempre teve dificuldades enormes na escola, que acabou abandonando durante o ensino fundamental.
Minha avó costumava fazer os outros nove filhos arrancarem flores no jardim e formarem uma fila para que cada um desse "meus pêsames" por mais um ano perdido por minha mãe. Durante esse ritual ela não podia chorar nem brigar com os irmãos. Tinha que aceitar calada.
Meu pai sempre gostou muito dos livros e dá bastante valor aos estudos. Apesar de ter se casado com a minha mãe sabendo de suas dificuldades escolares, acho que ele não aceita muito bem essa condição e em algumas ocasiões acaba sendo indelicado e preconceituoso. Ele chega ao cúmulo de insinuar que nós, seus filhos, cursamos boas faculdades e temos nossas carreiras apenas por influência dele. Nós mesmos, na época da escola, não aceitávamos que ela nos cobrasse melhor desempenho escolar. Isso a magoou bastante.
Minha memória em forma de pedido seria que meus pais tivessem se conhecido na escola e que meu pai, sensível às dificuldades da minha mãe, fosse aquele colega de sala que a ajudaria a superar, estudando junto e insistindo para que ela pelo menos permanecesse sentada na carteira (coisa que era muito difícil para ela). Com isso minha mãe poderia escapar das surras da minha avó e meu pai poderia crescer mais compreensivo. E esse encontro nos bancos da escola duraria o tempo suficiente para que eles se casassem e nossa família existisse hoje (quase) da mesma maneira.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A eterna dor de experimentar tudo e não sentir nada

É, seria aquele que passa, uma pausa, um descompasso?

Ora, diria que a vida lhe enfiou um colete daqueles que servem para ajeitar (ou entortar).
O que ele seria se não fosse essa massa?
Esse moço seria um outro.
Nos filmes, na vida e na barbearia do Seu Luiz o tempo passa igual.
No quarto do moço não.
O que faz esse coração achar que bate?
Os filhos continuam indesejados e o mundo não deixa de girar.
Moço finge que vive uma vida de privações.
E pensa que o rádio canta pra ele.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Diz minha mãe que o céu tá tão claro que dá pra ver as pernas dos passarinhos.