Joana era faxineira e tinha somente um defeito: odiava encontrar cabelos pela casa. Fios no chão, fios no colchão. E no banheiro então! Varria praguejando contra aqueles que deixam os cabelos escaparem da cabeça. Joana só tinha um segredo: era careca. Alopecia, uma doença de família. Mais precisamente alopecia areata totalis. A coitada escondia a mazela da vizinhança inteira. Tinha uma peruca que ganhara da ex-patroa, uma dançarina decadente que vivia a rememorar os tempos do Cassino da Urca. Pois bem, vivia assim. Um dia após o outro, a mesma peruca. Lembrava a todo momento que nunca poderia sacudir a cabeça com vontade, nem tomar um banho de piscina com Josias, o porteiro tímido da noite, que um dia ainda haveria de convidá-la. Ela se esquecia das demais mazelas do mundo, preocupada com os cabelos que nem eram seus. Chegava de noitinha na vila, enrolando os falsos-cachos com os dedos, nem aí para os boatos que o bondinho atropelara mais um. Quando ficava bem aborrecida, gostava de pensar em quem não tinha um rim.