segunda-feira, 22 de setembro de 2008

me convida?

se um dia encontrar comigo
debaixo do seu vestido
alçando voôs de vagalume
escalando qualquer cume
me convida?

não se sinta repreendida
vira o rosto e olha a vida
esqueça a sucessão de esquinas
desmonta suas outras sinas
me convida?

olhe o mundo novidadeiro
faz da banheira o seu veleiro
vigie a espera que ela já vem
no horizonte, um outro quem

Uma mulher como você

Joana era faxineira e tinha somente um defeito: odiava encontrar cabelos pela casa. Fios no chão, fios no colchão. E no banheiro então! Varria praguejando contra aqueles que deixam os cabelos escaparem da cabeça. Joana só tinha um segredo: era careca. Alopecia, uma doença de família. Mais precisamente alopecia areata totalis. A coitada escondia a mazela da vizinhança inteira. Tinha uma peruca que ganhara da ex-patroa, uma dançarina decadente que vivia a rememorar os tempos do Cassino da Urca. Pois bem, vivia assim. Um dia após o outro, a mesma peruca. Lembrava a todo momento que nunca poderia sacudir a cabeça com vontade, nem tomar um banho de piscina com Josias, o porteiro tímido da noite, que um dia ainda haveria de convidá-la. Ela se esquecia das demais mazelas do mundo, preocupada com os cabelos que nem eram seus. Chegava de noitinha na vila, enrolando os falsos-cachos com os dedos, nem aí para os boatos que o bondinho atropelara mais um. Quando ficava bem aborrecida, gostava de pensar em quem não tinha um rim.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

"ter beleza interior
é saber fazer renda
com cada fiozinho de dor"

czarina das quinquilharias

Pardais

e bate as asas e tenta voar
se esconde

onde?

em mim

numa gaiola bonita

escondida dos tempos
enfeitada de céu

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

suvenir

não me serve apenas como lembrança
de uma viagem malfeita, longínqua
resgate de memória
afogamento de história
cada vez que o olhar
vou lembrar
seus olhos náufragos
boiam em mim

Maníaca

a dúvida,
essa maníaca com mania de mim
me atrasa nos compromissos diários
que tenho comigo mesma

me esquiva dessa rotina incansável
que sigo com fervor
me afasta dos pés da cama
onde vivo amarrada ao amanhã

não sei se enlouqueço.

Um axioma

Nem eu nem você chegamos ao fim
Esgotamos
Não sobra em mim constatação
A felicidade, e só ela, lhe apetece

Um soco não é o que você merece
O óbvio amanhã carmim
Desvela o ódio que há em mim
Sossego
Sossegar
Num balanço, balançar

Só vejo em nós
Certeza

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

trecho de "a viagem do elefante" - o novo do Saramago

"Estranho animal é este bicho homem, tão capaz de tremendas insónias por causa de uma insignificância como de dormir à perna solta na véspera da batalha".