quarta-feira, 30 de julho de 2008

e a cidade vai ficando velha...

frases de cabeceira e a cidade vai ficando velha
lua na janela e lamparinas me lembrando dela

estrada florindo buracos
seu vestido arrastando no chão
seus parcos olhos borrados

a cidade vai chegando perto
e nada de você se sentir em casa

golfada ou repúdio aos jogos olímpicos de beijing

meu repúdio
minha cisma
meu nojo

meus olhos não serão espectadores
não me informe sobre a programação
nem me entregue esse controle remoto

não posso sacodir a poeira debaixo
desse tapete enorme e vermelho

vocês não podem aprender etiqueta
nem parar de cuspir no chão

cordialidade?
vocês cospem pra cima
cospem em si mesmos

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Demão

se escorre essa tinta cor de carne
do retoque mal-acabado do seu rosto
o sorriso amarelado que descasca
escarnece e devagar mostra o mofo

aí sim, todos veriam a mentira daquele adeus

Brasília?

senhores turistas,
eu gostaria
de frisar
mais uma vez
que nestes blocos
de apartamentos
moram inclusive
pessoas normais

entre
entre, por favor
entre blocos
entre quadras
entre
entre, por favor

eixos que se cruzam
pessoas que não se encontram

a superquadra nada mais é
do que a solidão dividida em blocos

tuas qualidades arquitetônicas
meus defeitos poéticos

blocos melancólicos
superquadras sem superego
eixos se retorcendo
monumentos em agonia
gramados deprimidos
linhas suicidas

a cidade é isso mesmo que você
está vendo mesmo que você não
esteja vendo nada

Nicolas Behr

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Luiz Rufatto quem disse.

"A narrativa tradicional, mesmo em primeira pessoa, é seletiva - o leitor desconfia que o autor está escondendo algo dele. Na epistolografia, não, a sensação é de que nada nos está sendo omitido."

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Prosa, cadê tu?

Sou de escrever o que não sinto. Odeio catarses, adoro vírgulas. Tenho pensado bastante na preferência pela poesia. Gostaria de ser mais prosa. Mais frase, menos verso. Outro dia me elogiaram um versinho. Não resisti. Arranquei a página e a transformei num conto. Ficou parecendo bula de remédio. Na hora me lembrei do meu primeiro poema (A profilaxia do amor) e dos prêmios de redação no colégio. Tentei resgatar em que momento me perdi da prosa. Quando te soltei as mãos? Eu defendo a narrativa, protejo as confabulações e sou eternamente refém da poesia.

Que estais nos céus

pai forte, mãe estanque
pai médico, mãe ociosa
pai operário, mãe ausente
pai doente, mãe zelosa
pai ausente, mãe puta
pai herói, mãe sombra
pai sonhador, mãe morta
pai viúvo, mãe torta
pai ingrato, mãe coragem
pai inerte, mãe ativa
pai culto, mãe porta
pai burro, mãe dupla
pai amigo, mãe amarga
pai cego, mãe ao lado

pai-nosso, pais nossos.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Natureza Morta ou Vidas Paradas

naquela fila
uma dança te escapa
vozes se estranham
pelo excesso de delicadeza

meninos-moça
cabelos ao gel
línguas al dente
timbres diminutivos

eles se imitam
se corrompem
se ofertam

pensei em ti,
me veio um poema de mau gosto

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Da série: Números contam histórias muito especiais

Tenho 300 meses de vida. Já achei que estava apaixonada 7 vezes. Tive certeza 1 vez. Tentei vestibular por 2 vezes, passei em 1. Passei 110 dias chorando de amor e perdi 8 kg em 2 semanas. Tenho 34 pares de sapatos e 8 cachecóis. Também tenho uma coleção de 60 botões. Já ganhei 258.983 beijos e dei uns 678.345. Eu já morei em 3 cidades e já quis morar em 37. Eu morava a 115 passos da faculdade. Fiz mais de 10 amigos por lá. Perdi alguns. Tive 1 animal de estimação (1 rolinha), que minha mãe matou afogada no potinho de água. Tive 1 namorado de mentira por 2 meses e tenho 1 de verdade, por 53 meses. Tenho 41 músicas preferidas e 12 filmes. Na minha janela tem 4 plantas e moro num pensionato que tem 6 freiras. Tenho 1 mãe e 1 pai, 2 irmãos e 4 avós. Já arranquei 8.005 fios de cabelo e me achei horrorosa 278 vezes. Tenho 6 estrias de cada lado da coxa. Tenho 9 tios, mas já tive 11. Fiz 67 besteiras e sofri as consequências por 22 vezes. As outras passaram despercebidas. Tive vontade de rir 1.567.890 vezes e ri 1.567.889 porque 1 vez era num velório. Já acordei sonâmbula 12 vezes e em 1 eu dei descarga no cobertor. Já mandei 67 cartas e recebi 30 cartões postais. 20 são de 1 pessoa só. Tive 2 chefes. Fiz 6 estágios e ganhei 4 bolsas. Tenho 547 livros e 1 tem a dedicatória da autora para mim. E não é 1 autora qualquer! Já fiz 88 poemas. Queria ter nascido na década de 50. Já sonhei acordada 68 vezes e em 1 eu não acordei mais. Sei de cor as 2 primeiras estrofes de um do Augusto dos Anjos. Tenho 1 memória de foto. Quando vou à feirinha como 1 batata recheada, 2 pedaços de pizza e 1 fondue de chocolate. Já fiquei em 2º lugar no campeonato de natação. Só havia 2 competidoras. Aprendi a fazer 32 pratos diferentes para agradar 1 pessoa. Tive que provar por 2 vezes que era confiável. Já comi 45 potes de Nutella. 22 eu dividi com alguém. Eu nasci com 3,9 quilos e hoje tenho os quilos que quero. Agradeço a vida que levo umas 4 vezes ao dia. Tenho 1 tatuagem que é 1 borboleta de 1 asa só. Já contei 4.786 histórias e 700 mentiras. 33 pessoas acreditaram.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

cama morna

que crimes você comete ao acordar?

expulsa a noite com o cobertor.

não vê mais o mundo girar.

surpreende o café quieto no bule.

assusta os chinelos com a pisada forte.

decide o dia.

A minha mulher

ela fica feliz quando alguém copia seu penteado
ri como daquela vez em que comeu num restaurante francês
abre os olhos como no reveillon passado
mas lacrimeja cinzas

roda a saia ao me dar as mãos
estufa o peito pra dizer que ama
se tranca no banheiro tarde da noite
e dá descarga no amanhã

ergue os braços num abraço ao céu
suspira fundo ao ganhar flores
gargalha alto no carnaval
mas morre um pouco a cada manhã

se ela é forte eu não sei

o feriado ao lado

vivo na ponta dos pés
espreitando a cerca do vizinho
piso nas cercanias do tempo
narrando os passos do outro
e apagando minhas próprias pegadas

sirvo de espaço vazio a qualquer um
eles fazem de mim sua janela aberta

mas nessas folgas de mim mesma
posso ver além dos meus muros

terça-feira, 15 de julho de 2008

Combate

janelas das casas no alto
eu olho de boca aberta
eu vejo essa terra
que não acolhe
encolhe quem a fez
escolhe quem a tem

desesperada eu sinto por nós
que escolhemos aqui como ninho
fico sabendo a dureza, de querer ser
nessa cidade

ao mesmo tempo
posso ou digo que posso
sou aborígene de mim
porque só eu me conheço

num poço fundo
de braços e fatos turvos
jardim de mãos

que em uma hora me expulsam
noutra me sugam

dias demais

ela está sem juízo
uma menina sem cor
ele faz poemas de montar
tipo lego-poesia
vários de amor
ela comprou um xampú que não limpa
e luvas de verão
ela tem dias demais
ele tem idéias demais
os dois juntos não abrem a boca
se adivinham num movimento de cílios
abstratos
eles se rimam
embora ela seja mais drama
quem escreve é ele
um dia eles têm a vida por perto
noutro, a morte pela frente
vão de mãos dadas, atadas
ela resolve escrever
pra deus
pedindo
uma cerca-viva
formigas
mais coceira nos pés
e rede
eles têm dias demais