domingo, 16 de dezembro de 2012

Quando um pequeno mundo acaba

quando um pequeno mundo acaba
um mundo sem latifúndio, sem capital e com poucas metas
quase ninguém dá falta
povo nenhum faz previsão da natureza finita desse mundo
ele apenas termina, assim...assim
muitos viventes desse mundo, nem dão conta que ele acabou
e prosseguem caminhando a esmo
pisando pegadas que não serão impressas nos caminhos do fim do mundo
tem gente que ouve até canto de pássaro
nesse mesmo mundo, o que já não existe
uns escutam, saudosos, uma canção do passado
outros teimam em querer verter assunto, sobre esse mundo, o que acabou!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A culpa mói o homem.
A culpa move o homem.
A culpa muda o homem.
A culpa mede o homem.

Ele é a culpa que sente.
E o culpado pela culpa do homem, tem paz?
Ou ri da culpa do pobre rapaz?
Nem um, nem outro.

Ele apenas pensa, ao ver o homem-culpa ambulante: - ali jaz.

domingo, 25 de novembro de 2012

olhos vazios
olho o vazio
e ele me devolve
o olhar
olhos verão
olho o verão
e ele me mostra
o mar
olhos passados
olho o passado
e ele me propõe
mudar

escolho não me mudar
daqui
do verão
do mar

do passado eu só fujo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"desembarco e a vida é isso."

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Estaria em seu mesmo nível nesse aspecto, ou em sua dimensão, ou em seu tempo, e já não permaneceria neste mundo precário que vai tirando nossos costumes. Nada mais se tira de nós se nos tiram de cena. Nada mais se acaba para nós se alguém já acabou.

Os Enamoramentos - Javier María



(é o livro da vez, ganhei do meu pai)

domingo, 11 de novembro de 2012

Os filhos dão muita alegria e tudo o mais que se costuma dizer, mas também, e isso não se costuma dizer, dão muita pena, permanentemente, o que não creio que mude nem quando forem maiores. Você vê a perplexidade deles diante das coisas, e isso dá pena. Vê a boa vontade deles, quando estão a fim de ajudar e acrescentar algo próprio mas não podem, e isso também dá pena. Dá pena a seriedade deles e dão pena suas brincadeiras elementares e suas mentiras transparentes, dão pena suas desilusões e também suas ilusões, suas expectativas e suas pequenas decepções, sua ingenuidade, sua incompreensão, suas perguntas tão lógicas e até a ocasional má intenção que possam ter. Dá pena pensar quanto lhes falta aprender e no longuíssimo percurso que têm pela frente e que ninguém pode fazer por eles, apesar de estarmos há séculos fazendo e não vejamos a necessidade de que todos os que nascem devam começar outra vez desde o início. Que sentido tem cada um passar pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos eternamente? 

Trecho de “Os enamoramentos”, de Javier Marías.

sábado, 20 de outubro de 2012


As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituimos cada ser e coisa à condição precária.
Rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
 
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


O céu me deu um dia branco
E de brinde eu não sei como será
Chegar em casa e não te achar

Aquele sol que ta lá fora
Definitivamente
Eu não sei enxergar

Próxima ao parapeito
Cogito a hipótese
De não mais estar

É que me falta coragem
Nasci pra viver
E ver de verdade
Como vai acabar

Quem gosta de janela
é violeta.


O azedo da pitanga
Não diz nada sobre o verde da maçã
Um grito, uma febre, um afago
Nada contam sobre o amanhã

O seco da passa
Esconde a uva viçosa de outrora
A noite, o breu, a calma
Nada intuem sobre a aurora

Ter casca
Não te impede
De ser ferida

domingo, 9 de setembro de 2012

Poeminha que Drummond fez quando do nascimento da filha do poeta Lázaro Barreto. Drummond e Barreto nunca se viram, mas se corresponderam por muitos anos. 


Lázaro e Inês
Agora três
Nada comum
Os três agora
Formam só um
A toda hora
Arte de amar
Lição de aula
Aberta em flor
Maria Paula.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

E eis que, depois de vinte e nove anos, ela resolveu abrir os olhos dentro do trem fantasma.

sábado, 1 de setembro de 2012

Nina

quando nina chegar
muitas coisas vai perceber
uma delas, muitas delas
sua mãe quem vai fazer

coisas com as próprias mãos
ela irá encontrar
coisas feitas por mim
em casa, vai achar

esse poema bobo
até poderá ser uma
mas não será só isso
coisíssima nenhuma

mamãe pintou móveis
encheu a casa de flores
se esqueceu de compromissos
e aprendeu novos sabores

a menina é esperada
com uma nova plantação
mesmo que seja só mais um
vaso de manjericão

muitas palavras nas paredes
mamãe vai escrever
a menina ainda não sabe
mas vai ler até sem saber

nina vai conhecer
várias coisas, muitas frentes
gente nova, gente velha
tantas caras diferentes

mais tarde será ela
ela mesma a escolher
por enquanto são os meus
os olhos que ela vai ter

a coisa mais importante
não será a esperteza
num mundo como esse
vai aprender delicadeza

mamãe faz pilates
e treina a respiração
só pra perder o fôlego
quando ouve seu coração

quinta-feira, 30 de agosto de 2012


sábado, 18 de agosto de 2012

Retrato de mulher - Wislawa Szymborska

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d'água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece,
a única no mundo.

Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Estranho nosso pôr do sol
ser o nascer do sol dela
Confuso nosso convívio
ser caro aos olhos dela
Verdade nossa fronteira
ser o fim da linha dela
Faz sentido, então, meu perdão
ser só o sorriso dela


sábado, 4 de agosto de 2012

Que não está podre (ex.: fruta sã)

Fruta sã
que encontra em boca vã
pífio conforto
derrama nódoa suja
aos pés da frondosa árvore
que sombra fresca
te deu


Falando assim
parece praga.

E é.


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Um olho azeite, outro vinagre.

Os olhos que te olham
não mais meus
são os seus próprios
que inescrutam
insólita e culpada retina

Esses outros,
sedentes de alforria
são olhados por olhos
imorais
que tentam em vão te inocentar

Tais pupilas
que ao se confrangerem
rumo ao seu peito
tentam ariar terreno calmo
e só encontram solidão

E para cada cisco
que cisma em deitar
nesses olhos
o meu sopro é único bálsamo
eficaz.

sábado, 21 de julho de 2012

Dona Virgínia diz que se deus não nos dá nada, então como pode tirar?
Um Novo Baiano fala que deus era João Gilberto assoviando embaixo do prédio.
Em o guardador de rebanhos deus é um velho rabugento que não aguenta a pomba do espírito santo cagando por todo canto.
No fim da trégua Santomé pragueja infinitamente por deus levar Avellaneda tão cedo.
Na Índia tem deuses com muitos braços, enquanto por aqui o senhor precisaria de um milhão de ouvidos.
Alberto, depois dos porões de 68, odeia deus e sabe com certeza que ele nunca existiu.
Boff crê num deus-mãe e entende que nunca existirá um deus de bondade enquanto houver miséria.
Para Juan, se deus fosse mulher, os ateus não diriam não com a cabeça, diriam sim com as entranhas.

No fim, a gente só quer alguém que nos escute e não conte pra ninguém.


"Deus virou deus em minúscula e passou a ser chamado por mim de acaso; e ele, o acaso, é capaz das maiores belezas e das piores crueldades, feito Ele antes de morrer em mim. "

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Só mais um instante enquanto há canto

O réu deu ré na liturgia de sempre
e acabou como menino pego de calças na mão
O prego na parede já posto
mostrou que ao sair faz estragos irreparáveis
Aquele estandarte bonito que você carrega
de vez em quando balançava
As palavras feias ditas ao léu
pregaram feito cola nos ouvidos
E a música que antes dizia algo
depôs foi silêncio mortal

Só que os passarinhos ainda estão lá fora
como eu já disse aqui uma vez:
cantando.



domingo, 15 de julho de 2012

A mesma dor. Com a mesma cara. E meu único conforto é ter a certeza de que sou a única que sabe de verdade quem você é.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Eu ia à feira
eu ia à feira
e só
trocava em miúdos
moedas de tristeza
pechinchava as dores
mais maduras
temia os restos
as sobras sujas de você
a cada manhã
a espera pelo orvalho
fresco dos meus olhos


domingo, 1 de julho de 2012

Preguiça

antes eu me encostava na preguiça sem dó
dormia no conforto de me saber sua
acordava com seu sorriso que zombava de tanto sono
boa razão para, tranquila, ressonar mais um pouco
agora o cochilo é um sobressalto assustado
sei que ao acordar nada me espera
só as paredes brancas condenam minha preguiça
e dizem: - bem feito, sonhou demais.


Tenho uma casa nova
muitos papeis pra assinar
sete meses pra esperar
alguém de quem cuidar
Perdi o jeito com a mão
o foco dos olhos
imóveis são os cantos da boca
que aguardam aquele sorriso
demorado
Meu último presente pra você
uma mala
pequena mas singela
em seu objetivo:
Não guardar nada que signifique
nós


Logo eu que exigia varanda.

Logo eu, meu bem, que exigia varanda
pra rede
pra ver
pra sol
pra nós
Fiz um mosaico de cacos
certa de que ficaria bonito.

A janela

agora a janela é uma enorme moldura da solidão
e sei que os vizinhos me olham ver
o nada lá embaixo
saberiam eles que espero você?
você que não é você mas ainda sim é um pedaço de você
é menina, todos sabem
quando não houver o que esperar
qual moldura terá a paisagem que eu olhar lá fora?





A essa hora você deveria estar entrando por aquela porta
Não saindo
E todas as portas do mundo, as que atravessamos juntos
Deveriam ranger
Os caminhos que percorremos, tortuosos ou muito retos
Esses poderiam se apagar
Sem demora
Ou irem embora, dando a volta
A recomeçar
Não busco entrar nunca mais
Em portas abertas pela memória
E fechadas pelo simples fato
Que nunca precisariam ter estado lá.



domingo, 20 de maio de 2012

"No creo en la eternidad de las peleas / Ni en las recetas de la felicidad"

Tenho medo do que as pessoas vão dizer. Irão elas dizer que menti?
Que meu sorriso era de gesso, que nossas mãos nunca andavam dadas?
Que nossas conversas eram coisa da minha cabeça, talvez fora do lugar.
Que eu fui mulher mais uma a acreditar em vapores onde só havia vácuo.
Todas essas estradas em comum. Será? Seriam?
Pela manhã eu tenho a certeza desse não-amor, de noite eu discordo e passo a me sentir penada.
Eu mesma me dou e me tomo.
Em três seremos mais fortes?


Um dente ou só dói quando machuca

Aquele que só dói quando fere
ele espera que sare
Ele não fala sobre
não cabe nem se abre
Tem medo de sobra
cobra um sinal sonoro
Precisa que sobre
Um meteoro
Na cabeça de alguém que
não na dele
Vive um fugaz momento
se escora
Uma lembrança decora
Grava e demora
a esquecer
Escolhe alguém banal
pra ter prazer
Lágrima escorre
Engole

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um grão de areia se aborrece com a densidade populacional da praia e decide ir morar numa vaga vazia de estacionamento gratuito. O camarão se acha um mito-burguês e resolve frequentar somente acarajés.
O filho descobre que não precisava do pai e nem da mãe para ter nascido e reivindica com veemência o abandono afetivo.
A mulher descobre que um homem pode chorar, mesmo que apenas por interesse próprio. Proíbe então homens sensíveis de se aproximarem num raio de dez metros.
As babás-faxineiras-cozinheiras-cuidadoras-empregadas são avisadas que estão livres para escolher apenas uma identidade, o que causa uma onda de matérias em revistas femininas incentivando a mulher moderna que trabalha fora a assumir todas essas identidades e mais a de mãe zelosa.
Minha mãe faz chantilly pra comer com morangos que olha, fica uma maravilha. E eu tenho uma vaga impressão que nesse caso o açúcar se exime de engordar quando estamos satisfeitos.