sexta-feira, 22 de agosto de 2008

acrílico

pra quem gostar de mim, aviso:
sou leve
desistente
demente que tente se aproximar, eu digo:
transmito a luz
densidade
com impacto não me fragmento
te atormento
atenção: sou viável em termos econômicos

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Rugas - Nelson Cavaquinho

"Se eu for pensar muito na vida
Morro cedo, amor".

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Minhas Ocupações Maravilhosas



na hora em que converso com o telejornal, discordando da pauta e do nó da gravata
ou me ocupo em encontrar famílias postiças para mariposas deprimidas pela falta de quadros no meu quarto ou pelo excesso de salas em minha vida
se resolvo virar o retrovisor pra cima, me guiando pelo céu sem estrelas ou pelo caminho sem volta
se adivinho a que velocidade vão os pensamentos dos cabeça-de-vento que conheço
quando acho que vou escrever pra sempre com a mesma caneta
quando registro em meu diário o movimento do mundo.







terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ocupações Maravilhosas

"Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.
Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos,igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.
Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho das pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.
Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelopes com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca e ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto".

Histórias de cronópios e de famas - Julio Cortázar

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

a cria

semente de gente vive em mim
mas mamãe não sabe que vim
cheguei antes de tudo
sacudi seu mundo mudo

com convites voláteis
sorrisos fáceis
alegorias de dizer sim
bilhetes escritos assim

sou jasmim sem cheiro
na verdade recendo a bueiro
te envergonho e te sonho
suponho:

muito sobre mim
nada sobre ti
tudo sobre nada